quinta-feira, 23 de maio de 2013

Crítica de URANO QUER MUDAR na Revista Osíris



URANO QUER MUDAR

Por Marco Vasques e Rubens da Cunha

A recente montagem de Urano quer mudar, de Rogério Christofoletti, sob a direção de Brígida Miranda e com atuação de Margarida Baird e José Faleiro, causa um estranhamento diante dos elementos que a compõe. O jovem dramaturgo escreve sobre um casal de atores que está de mudança e encontra uma peça que nunca conseguiu montar: temos, então, o velho recurso da peça dentro da peça. Margarida Baird e José Faleiro, casal icônico do teatro catarinense, atuam como personagens e como se também estivessem falando de si. A direção de Brígida Miranda opta pelo intimismo, por uma atuação quase que improvisada dos atores e, como ponto positivo, retira da peça qualquer empostação teatral, ficando no campo da conversa, na qual o público se coloca como ouvinte privilegiado das histórias do casal de atores.
Se há uma coisa sobre a qual não se pode questionar em Urano quer mudar é a coerência de sua proposta. A simplicidade permeia o espetáculo, que na constituição de trama labiríntica formada por três casais (José-Margarida, Urano-Fenícia e José-Cherry) coloca o espectador num entrelugar, numa zona de articulação estranha. Há três níveis de interpretação que constituem as cenas. Os atores passam da leitura dramática ao ato de contar muito intimamente uma história e chegam ao que se costuma chamar de constituição de personagens próprios de uma dita dramaturgia convencional. Todo o espetáculo é urdido numa constante metalinguagem, na qual Faleiro e Baird vão se esgueirando pela narração, pela leitura dramática e pela atuação típica da tradição teatral que confecciona os chamados tipos. A memória é a maior metáfora. Afinal, somos muitos, embora aparentemente; tentamos selar a vida com a tal da identidade una.
            O estranhamento vem justamente da mistura constante entre passado e presente, entre biografia e ficção. Muitas das cenas falam mais diretamente àqueles que estão envolvidos com a produção de teatro. As ironias e as indiretas chegam mais claras aos que conhecem a trajetória dos atores. A força de Urano quer mudar está na simpatia com que os dois atores desempenham seus personagens. O que dá suporte à peça é a questão da memória: a que carregamos dentro, no nosso corpo, ou a que está nas coisas que carregamos conosco, mas que são externas – finitas também, frágeis sobretudo – e que podem ser abandonadas a cada mudança?
Ecléa Bosi, na introdução de seu livro “Memória e Sociedade – Lembranças de Velhos”, ao falar sobre os depoimentos recolhidos, diz que “[...] se as lembranças às vezes afloram ou emergem, quase sempre são uma tarefa, uma paciente reconstituição. Há no sujeito plena consciência de que está realizando uma tarefa [...]. Esta tarefa é um auto-aperfeiçoamento, uma reconquista”.
            Não podemos deixar de constatar, também, que o caminho percorrido pelo grupo oferece vários perigos. Urano quer mudar é um espetáculo que será melhor fruído pelo espectador habituado ao cenário teatral catarinense e que conheça, ainda que superficialmente, um pouco da trajetória do intelectual e professor Ronaldo Faleiro e da atriz Margarida Baird. Não apenas isso. Até a condição amorosa – Margarida e Faleiro são casados – é ponto importante para que a plateia se relacione com o espetáculo. Esse teatro que podemos posicionar na fronteira do confessional, que já nos rendeu peças brilhantes como “Luis Antonio – Gabriela”, dirigida por Nelson Baskerville, e “Cabaret Stravaganza”, encenada por Rodolfo Garcia Vázquez, tem seus riscos e expõe cruamente a vida dos atores. É preciso conquistar a vivência da memória. Mais do que isso, Urano quer mudar aposta na construção de memórias.
A peça de Christofoletti propõe justamente essa busca, essa tarefa que é executada pelo casal de atores. A memória é uma espécie de resgate, em que o fato realmente acontecido pode retornar travestido de invenção, de esquecimento, de pontos de vista, além de vir sempre como fragmento, pedaço, recorte dúbio. Urano quer mudar transita justamente sobre essa hesitação, esse entremeio, entre o que é real e o que é ficção, entre o que é a memória dos atores e o que é invenção. Talvez seja justamente isso que tenha nos causado tanta estranheza. Ela não nos dá um teatro que estamos acostumados a assistir, nem no sentido da transgressão, da ruptura, da ousadia estética, nem no sentido daquele teatro falho, superficial, torpemente amador a que o público é constantemente submetido.
Com um cenário simples, constituído de livros, algumas fotos, dois baús que vão ganhando significados distintos – pois ora são o depósito da memória, ora se transformam em caixão -, muito papel para embrulhar lembranças e esquecimentos, as cenas vão se imbricando entre ato de vida e ato de morte. Sim. Faz-se necessário dizer que Urano quer mudar trata claramente também do esquecimento, da morte e, claro, das pasteurizações que o teatro e arte vêm sofrendo. As ironias feitas com autores (Stanislavski e Coupeau, por exemplo), com a questão da autoridade, dos modos de representação que os atores experimentam perpassam esse ambiente simples criado pelo grupo.
            Urano quer mudar se coloca em outro lugar, muito por causa dos nomes envolvidos na sua produção, e estabelece com o espectador um pacto difícil, mas bastante instigante: o de que ali, naquela uma hora de encenação, o que vai ser visto são fragmentos de uma história longa, que se deu no teatro, mas não apenas nele, que atravessou e continua atravessando a vida. Somos convidados a escutar, ver, sentir as memórias aflorando. É uma experiência que causa comoção, seja pela identificação com a trajetória dos personagens, seja porque vem imbuída de uma força que desloca o olhar crítico sobre a peça como um objeto de arte.
Como já dissemos, a peça desloca o espectador a um campo outro, o que no nosso caso, causou a estranheza. Estávamos assistindo a uma peça de teatro, percebíamos certas falhas, certas incongruências estruturais, certos pontos que poderiam ser melhor desenvolvidos, mas ao mesmo tempo estávamos enlevados noutro plano, seduzidos pela exposição fictícia, real, inteira, fragmentada da memória de Margarida Baird e José Faleiro.
A professora e estudiosa da memória, Lina Bolzoni, diz que “[...] para que o espetáculo da memória se ponha em marcha e funcione é necessário que o olho da mente recorra às imagens de uma maneira lenta, ordenada e analítica”. Assim, a arte da memória requer uma visualização muito distanciada da nossa, uma visualização capaz de extrair da imagem todas as mensagens com as quais havia sido revestida. Essa peça, com todas as suas qualidades e defeitos, é justamente a memória se colocando em marcha, lentamente, e por requerer uma visualização tão distanciada do que estamos acostumados, causou-nos estranheza, um rescaldo de dúvidas e incertezas sobre o que estávamos vendo, ao mesmo tempo em que ficávamos surpresos por estarmos numa zona de fronteira, naquele espaço misterioso e essencial em que a arte da memória atua.
Estamos diante de uma potência teatral que precisa reordenar as forças e as energias que foram, tão afetivamente, ofertadas ao espectador. É preciso que se redimensione a estética do trabalho para que o espetáculo possa dialogar com qualquer público, para que ele não seja, notadamente, uma conversa íntima e afetiva feita para amigos. Talvez aí esteja o maior desafio de Brígida Miranda: encontrar no todo do espetáculo um ponto de equilíbrio que possa deslocar, também, o espectador alheio ao conjunto de referência que já expusemos.

domingo, 5 de maio de 2013

"URANO QUER MUDAR"

Fotos da apresentação do espetáculo "URANO QUER MUDAR" no Sesc Prainha - Florianópolis no dia 13 de abril de 2013 - Fotos Cristiano Prim.









quarta-feira, 1 de maio de 2013

URANO QUER MUDAR - temporada em maio

Todos os sábados e domingos de maio, às 20h, apresentações de URANO QUER MUDAR, no Círculo Artístico Teodora, Campeche.


sexta-feira, 12 de abril de 2013

URANO QUER MUDAR no SESC - Prainha

No sábado, dia 13 de abril e no domingo, dia 14 de abril, URANO QUER MUDAR se apresenta no SESC- Prainha às 20h.
O espetáculo sai de casa e será gratuito.
O SESC pede que o público chegue mais cedo para se inscrever na lista de ingressos. Como é um trabalho intimista, há limite de espectadores.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Temporada de Urano quer mudar

O Círculo Artístico Teodora realiza de 05 a 07 de abril novas apresentações do espetáculo "Urano quer mudar". Mais uma vez os queridos e talentosos Margarida Baird e José Ronaldo Faleiro estarão em cena dando vida a Fenícia e Urano. Para quem não teve a oportunidade de assistir as primeiras apresentações agora é a chance.



Um casal de atores prepara a mudança de casa, e redescobre o texto de um espetáculo que nunca chegaram a montar. Envolvidos nas lembranças de mais de cinquenta anos de palcos, eles passam a viver a história de um amor improvável que se passa em um cemitério. Memória ou invenção? Vida ou morte? Mudança ou destino? Quem se atreve a responder antes do caminhão de frete chegar?

Juntos pela primeira vez em cena Margarida Baird e José Ronaldo Faleiro se apresentam nos dias 5 e 6 de abril (sexta e sábado às 21h) e 7 de abril (domingo às 19h).
O preço dos ingressos (que devem ser reservados) para qualquer uma das apresentações é de R$30 a inteira, e R$15 a meia (válida para estudantes, idosos, artistas e professores)

(reserve seu ingresso pelo e-mail uranoquermudar@gmail.com ou pelo telefone 48 3304-0966)


Uma produção do Círculo Artístico Teodora com:

Texto
ROGÉRIO CHRISTOFOLETTI

Direção
BRÍGIDA MIRANDA

Assistência de direção
FÁBIO YOKOMIZO

Direção de arte
PAULO HENRIQUE WOLF

Direção musical e arranjos
PEDRO LOCH

Canções
ANA LAUX

Iluminação
IVO GODOIS
PRISCILA COSTA

Cenografia
BRÍGIDA MIRANDA

Figurino
IONY GABRIEL VECCHI
MARIA FERNANDA JACOBO

Produção geral
CLAUDIA VENTURI

Consultoria de preparação corporal
JACQUELINE FERNANDES

Elenco
JOSÉ RONALDO FALEIRO...............................................................José / Urano
MARGARIDA BAIRD............................................................Margarida / Fenícia

Apoio
COM.SENSO
LIN TAI
SB IMÓVEIS
CEART



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quarta-feira, 13 de março de 2013

Produção do Círculo Artístico Teodora estréia na Maratona Cultural de Florianópolis


O espetáculo “Urano quer mudar”, dirigido pela professora do curso de Teatro da Udesc, Brígida Miranda, estreará na Maratona Cultural 2013, evento gratuito anual realizado em comemoração ao aniversário de Florianópolis. Estrelado pelos atores Margarida Baird e José Ronaldo Faleiro, também professor da Udesc, a peça estreia nos dias 23 e 24 de março, às 20h, no Círculo Artístico Teodora, espaço que será montado no Campeche, em Florianópolis.

A peça de Rogério Christofoletti conta a história de um casal de atores – interpretados por José Faleiro e a premiada atriz Margarida Baird, casados também na vida real – que prepara a mudança de casa e redescobre o texto de um espetáculo que nunca chegaram a montar. Envolvidos nas lembranças de mais de cinquenta anos de palco, eles passam a viver a história de um amor improvável que se passa em um cemitério.

O texto de “Urano Quer Mudar” foi escrito originalmente em 2003 e apresentado através de uma leitura dramática no Festival Internacional de Teatro Universitário de Blumenau pelos mesmos atores que participam da atual encenação. O interesse pela montagem surge da vontade de José Faleiro e Margarida Baird de atuarem juntos em um espetáculo já que, mesmo casados há 20 anos, nunca haviam tido essa experiência.

Em 2013, a diretora Brigida de Miranda propôs que o texto fosse remontado, escalando para os palcos o mesmo casal de atores de dez anos antes. A partir de sugestões da diretora, o autor reescreveu “Urano quer mudar” criando uma camada narrativa adicio¬nal com novos pontos de tensão cênica e um final surpreendente. Os ensaios foram acompanhados pelo próprio dramaturgo, que pode adaptar o texto e torná-lo ainda mais próximo do elenco, incluindo também novas nuances em sua trama.

Mais informações sobre a peça na página: www.facebook.com/UranoQuerMudar.

Ficha técnica
Texto: Rogério Christofoletti
Canções: Ana Laux
Interpretação: Margarida Baird e José Ronaldo Faleiro
Direção: Brigida Miranda
Assistência de Direção: Fábio Yokomizo
Produção Executiva: Claudia Venturi
Direção de Arte: Paulo Henrique Wolf
Iluminação: Ivo Godois
Cenografia: Brígida Miranda
Direção musical e arranjos: Pedro Loch
Figurino: Fernanda Jacobo e Iony Vecchi
Consultoria de preparação física: Mestra Jacqueline Fernandes
Produção geral: Claudia Venturi
Realização: Círculo Artístico Teodoroa
Apoio: Com.senso e Lin Tai


Fonte: http://www.ceart.udesc.br/eventos/espetaculo-urano-quer-mudar-estreia-na-maratona-cultural-de-florianopolis/