quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Denise Fraga - “o público quer pensar, sim”

Matéria publicada no site: teatroemcena.com.br em 30/06/2016.

(foto da matéria original)

Em cartaz com Brecht, Denise Fraga diz: “o público quer pensar, sim”

“Em primeiro lugar, quero dizer que estou muito feliz. Muito feliz com essa peça”, Denise Fraga se apressa em falar assim que ouve a primeira pergunta da entrevista para o Teatro em Cena. A empolgação com que fala sobre “Galileu Galilei” ao longo de uma hora atesta sua sentença inicial. Hospedada em um hotel no Leblon, ela desfruta de um raro dia de folga. Vem de uma turnê de um ano e meio, que começou com uma temporada em São Paulo, e já acumula público total de 90 mil pessoas. (até o momento da publicação da entrevista)
No dia anterior à entrevista, se dedicou ao cronograma da Rede Globo. Ela fará apenas três capítulos da trama de Maria Adelaide Amaral e Vincent Villari, mas sua escalação chama a atenção: Denise não fazia novela há 20 anos. É um caso raro de atriz que conseguiu reconhecimento no Brasil sem fazer novela – não que ela tenha nada contra. Mas foram nove anos de “Retrato Falado” no “Fantástico” e, claro, muito teatro. Denise Fraga se autoproduz e tem seus próprios projetos. “Galileu Galilei” é seu segundo Brecht. Apaixonada pelo dramaturgo alemão, ela se desafiou a interpretar Galileu, o cientista que provou que a Terra girava em torno do Sol (e não o contrário), mas que foi obrigado a negar sua teoria heliocentrista para não ser morto na fogueira pela Inquisição.

– Quando eu li essa peça, fiquei muito inquieta. Não era um papel óbvio para mim, mas eu queria muito falar aquilo que o texto dizia. Queria muito dizer o que essa peça diz. Quando propus para a Cibele e ela topou, pensei: “bom, não estou tão louca assim”. A gente está em turnê sempre lotando os teatros. Brecht é muito popular. Ele usa ingredientes quase de folhetim nas histórias. Captura o público com entretenimento, um espetáculo sedutor, cheio de ironia, com timing cômico. Escreve para as pessoas se divertirem, ao mesmo tempo que conduz para uma reflexão que queria. Ele abre o pensamento para vários questionamentos.

Fala assim, apaixonada. A carreira da artista é cheia de sucessos, mas Brecht que a fisgou. No teatro, Denise já fez Samuel Beckett (“Esperando Godot”) e William Shakespeare (“Ricardo III”), e foi dirigida por Elias Andreato (“3 Versões da Vida”), Jô Soares (“Ricardo III”), Fauzi Arap (“Chorinho”) e pelo marido Luiz Villaça (“Sem Pensar”). Só com a comédia “Trair e Coçar É Só Começar”, ficou em cartaz por seis anos, com 1.600 apresentações. No cinema, recebeu sete prêmios pelo filme “Por Trás do Pano”, incluindo o Kikito em 1999; atuou em “O Auto da Compadecida” (de Guel Arraes em 2001); e neste ano estreou outra parceria com o marido, “De Onde Eu Te Vejo”. Mas é no teatro que vem emendando projetos. Desde 2006, não passa um ano sequer sem subir no palco. Sua peça mais premiada? “A Alma Boa de Setsuan”, que foi vista por 220 mil espectadores e lhe rendeu cinco troféus, entre eles o APCA e o Qualidade Brasil. De quem é a peça? De Brecht.

Tem lugares que lotam porque é de graça, e lugares que não. O que eu sinto é que são as duas coisas juntas, mas é muito mais a coisa do hábito, porque as pessoas têm a distância do teatro, o preconceito.

Você tem feito turnê com “Galileu Galilei” rodando o Brasil. O que tem percebido pelas cidades pelas quais passou?
DENISE FRAGASinto que essa balela de que o público não quer pensar está caindo por terra. É mentira. O público quer pensar sim. Se isso é feito com humor e ironia, então… O público fica feliz de ver um espetáculo no qual ele se diverte e, ao mesmo tempo, leva para casa uma cabeça inquieta, reflexões. Eu falo “vai, que você vai chegar diferente no escritório na segunda-feira”. Acho que é verdade. Se você puder, dá uma entradinha na nossa página no Facebook, porque tem os comentários das pessoas. A peça toca muito. A peça tem um poder muito grande de mexer com as pessoas. Acho que o Brecht chama, principalmente nessa peça, para você se resgatar e estar em dia minimamente com você mesmo. Ele pegou essa história, desse homem que nega a verdade para não ir para a fogueira… Porque era óbvio, ele podia provar: com o telescópio na mão ele provava. Ele achou que isso bastava e viu que não. A verdade é a que interessa submetida aos poderes vigentes. Ele pega essa história e amplia para os lados essa reflexão. Acho que somos todos Galileus. Todos nós temos que negar o óbvio, coisas que são completamente verdade, mas a gente faz cara de paisagem para absurdos, em nome de não perder o emprego, da promoção que precisa, em nome de ficar bem com seu chefe. A gente inventou viver em uma sociedade que se pauta pelo que rende. A gente acaba justificando tudo por dinheiro. Mas aí vem o Brecht e faz com que a gente se identifique com isso, escrevendo um personagem completamente humano, falível, um Galileu cheio de paixões, um homem cheio de defeitos, que gosta de comer bem, que às vezes esbarra na linha ética, machista. Ao mesmo tempo que a gente se identifica com esse cientista, sendo tão humano, falível, ele faz a gente pensar: até onde a gente cede para não se perder de si?

A arte é uma necessidade de espelho para a humanidade se reconhecer e se entender. O que eu falo do hábito é que a gente não tem essa conexão com a arte como fundamental para a formação do indivíduo…

Sobre essa questão de negar a verdade para não ir para a fogueira em paralelo com as nossas concessões cotidianas, te pergunto: que concessões você já fez na sua carreira?
DN - Ah, no início de carreira, todos nós fazemos concessões – coisas que você não acredita, sei lá… Eu, na verdade, vou te falar, acho que tive uma sorte muito grande, porque eu fiz poucas concessões na minha carreira. Fazer essa peça, de alguma maneira, é escrever minha cópia escondida nos “restos de luz das noites claras”. Vou te explicar. O Galileu, quando está na prisão domiciliar, depois de ter negado, escreve os “Discorsi”, que é a obra mais importante que ele deixou para a ciência. Ele dava uma cópia para a Inquisição e escrevia outra escondido, que conseguiu que fosse publicada na Holanda. O Brecht escreve isso na peça fazendo com que ele receba a visita do André, seu discípulo, que fica muito decepcionado com ele quando ele nega… Fica anos sem vê-lo… Aí ele recebe a visita do André, uma das cenas mais lindas da peça, e Galileu diz sobre a cópia escondida: “pus em risco os últimos e míseros restos do meu conforto para fazer uma cópia escondida usando os restos de luz das noites claras”. E ele estava quase cego. Eu fico pensando: ele mesmo tendo negado, e não tendo resistido, feito a concessão, não conseguiu deixar de ser Galileu. Ele escreveu. Brecht abre muitas camadas. Com isso, ele faz a gente pensar: que brecha a gente pode achar, mesmo servindo às estruturas de poder que a gente serve, mesmo vivendo nessa sociedade onde vale o que é rentável, o que você ainda pode achar de brecha para continuar em dia consigo mesmo? Para estar minimamente em dia com seus ideais, para conseguir olhar no espelho com 70 anos e falar “eu ainda tô aí, ainda sou aquela”. Eu, graças a Deus, não tive que fazer muitas concessões na minha carreira. Cuidei para estar conectada e achar caminhos, porque não é fácil achar caminhos. Também tive sorte de conseguir fazer coisas que eu acreditava muito, projetos pessoais, coisas que eu queria dizer. Minhas últimas escolhas no teatro são nesse sentido. Eu leio uma coisa que é como uma fofoca que eu preciso contar, um negócio que me dá um frisson, que preciso propagar. Aí eu vou à luta para conseguir o patrocínio. O Bradesco, desde o “Alma Boa”, é nosso parceiro, muito correto, sabe? Quando quis montar o “Galileu”, fui lá com os olhos brilhantes e eles nos deram o patrocínio. É muito legal você ver agora o público no saguão do teatro me falando frases que são as mesmas que eu falava para convencer o patrocinador. Por isso que falo que fazer essa peça é meu jeito de escrever no resto de luz das noites claras.

A arte ajuda o indivíduo a estar mais preparado para a vida, entender seus dramas. Eu sempre digo isso: quem lê Dostoiévski e Fernando Pessoa, no mínimo, vai sofrer mais bonito. A arte não nos livra dos dramas, mas nos aparelha para entender a imperfeição humana.

Quando você levou a peça para Brasília, falou ao Correio Braziliense que a falta de contato com a arte é uma questão de hábito, e não de acesso econômico. Você não acha que as duas coisas estão interligadas?
DN - A gente fez várias apresentações gratuitas com o “Galileu Galilei”, tanto nos CEUS [Centro de Artes e Esportes Unificados] quanto no Circuito Cultural Paulista, que é um projeto do governo do estado para levar teatro para cidades que quase nunca recebem peças. A gente também fez agora o circuito de bairros em São Paulo, com tudo de graça. Eu vejo que, nessa peça, tem lugares e lugares. Tem lugares que lotam porque é de graça, e lugares que não. O que eu sinto é que são as duas coisas juntas, mas é muito mais a coisa do hábito, porque as pessoas têm a distância do teatro, o preconceito. Aconteceu uma coisa que acho muito emblemática nessa temporada: a faxineira de uma das atrizes foi ver a peça e falou uma frase que é muito simples, mas exemplifica tudo. Ela falou “nossa, eu achei que teatro era um lugar que você ia e tinha um monte de gente lá falando coisa que você não entendia. Não é! Pode me chamar que eu venho toda vez agora”. As pessoas mais simples têm uma ideia de que teatro é uma coisa difícil, perfumada, que você tem que ter uma roupa especial. Uma coisa que eu acho linda é que 60% do nosso público não sabe quem é o Brecht. A gente fez para todas as idades. No [Teatro] Tuca, iam as famílias inteiras, com crianças, de classe A à D, e você vê a peça tocar, reverberar. Mas a gente vive em um país que tem essa cultura de que a arte é algo supérfluo e não uma necessidade. Em qualquer povo da humanidade, nos povos mais primitivos da humanidade, tem arte. Eu fui uma vez ao Museu de Antropologia do México, onde você tem um panorama dos povos primitivos, e sempre a manifestação artística existe. A arte é uma necessidade de espelho para a humanidade se reconhecer e se entender. O que eu falo do hábito é que a gente não tem essa conexão com a arte como fundamental para a formação do indivíduo…

É disseminada uma cultura onde o cara é desenvolvido quanto mais dinheiro ele tem. Olha nossa elite! É triste de ver! Nossa elite tem piscina, vários carros na garagem, e tem gente que nunca foi a uma peça de teatro ou leu quatro livros na vida. Se leu, leu obrigado pela escola. Se fosse mesmo uma questão de dinheiro e não de hábito, os teatros estavam todos lotados, porque a gente tem muita gente que pode pagar por isso, mas que não são treinados para tal. Muitas vezes, simplesmente desconhecem.

Desculpa interromper, mas, por exemplo, vocês vão fazer a temporada no Teatro João Caetano, na Praça Tiradentes, no centro trabalhador da cidade. O ingresso custa R$ 30, que é barato, porque a meia é R$ 15. Mas o quilo do feijão também está em torno disso, então o preço já exclui grande parte dos trabalhadores. Que balanço você faz disso?
DN - Sim, mas sabe o que eu acho? Que eles não deixam de ir ao teatro para comprar feijão. Deixam de ir para comprar tênis, entendeu? Tudo bem, agora podem estar deixando de comprar feijão, porque todo mundo empobreceu muito. A gente está vivendo uma grande crise e esse ingresso parece caro já.
É isso que eu quis dizer.
DN - Mas o que eu sinto é que a gente prioriza o indivíduo que é desenvolvido quanto mais ele consegue adquirir, e não saber. A gente pauta a sociedade desenvolvida por aquela que tem carro, que compra tênis importado, e não aquele que agora vai conseguir comprar o seu ingresso, o seu livro. Você pega duas pessoas que tem ensino fundamental, que não passaram do 5º ano: o A vai ao teatro, ao cinema, lê, e o B não. O A é completamente uma pessoa mais preparada que o outro. A arte forma. A arte ajuda o indivíduo a estar mais preparado para a vida, entender seus dramas. Eu sempre digo isso: quem lê Dostoiévski e Fernando Pessoa, no mínimo, vai sofrer mais bonito. A arte não nos livra dos dramas, mas nos aparelha para entender a imperfeição humana. Uma pessoa que tem o código poético, que consegue estar em contato com a arte e absorvê-la, é mais preparada para a vida. E isso não é dado nas escolas, não é dado como cultura no nosso país. O culto à cultura, o culto à arte. Você entender que a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte. A gente não quer só dinheiro, a gente quer dinheiro e felicidade. Não estamos aqui para citar os Titãs (risos), mas é uma coisa de compreender… As pessoas reclamam muito do preço do ingresso. Eu queria muito fazer teatro de graça, sabe? Acho mesmo que facilitaria você pegar o cara pela mão e falar “vem aqui”… Na verdade, eu não queria fazer de graça. Queria fazer a R$ 2, porque queria que a pessoa entendesse que existe uma coisa pra comprar que vai te dar um reino de felicidade. Não só um reino de felicidade: você vai construir de tijolo em tijolo. Cada tijolo é um livro, uma peça, um filme que você veja. Você vai construir um arsenal para conseguir enfrentar a vida. Você consegue viver melhor através da arte, e isso não é disseminado. É disseminada uma cultura onde o cara é desenvolvido quanto mais dinheiro ele tem. Olha nossa elite! É triste de ver! Nossa elite tem piscina, vários carros na garagem, e tem gente que nunca foi a uma peça de teatro ou leu quatro livros na vida. Se leu, leu obrigado pela escola. Se fosse mesmo uma questão de dinheiro e não de hábito, os teatros estavam todos lotados, porque a gente tem muita gente que pode pagar por isso, mas que não são treinados para tal. Muitas vezes, simplesmente desconhecem. Nunca foram levados pela mão. A gente recebeu agora uma mensagem de um cara que foi assistir em Curitiba e é a coisa mais incrível. Quer ver? Eu até te leio. Está aqui no meu celular. Pera aí. *procura* “Denise, vocês arrasaram aqui em Curitiba. Muito bom mesmo! Foi a primeira vez que participei de uma apresentação de peça de teatro e fiquei imensamente inquieto para o consumo da arte. De fato, estamos em uma aridez de ideais e você e todo o pessoal estão lá para resgatar aquilo que infelizmente se desgastou em nós: a capacidade de sonhar, de extrair prazer da vida. Em minha vida, de fato, tenho que fazer muitas caras de paisagem e escolher não acreditar naquilo que é óbvio, não querer crer em meus próprios olhos. Tudo isso para não cair em uma certa Inquisição, para não ser banido de um sistema no qual estou integrado há muito tempo. Enfim, minha gratidão a vocês todos. Jamais esquecerei o que vivi aquela noite”. Não é incrível? Uma pessoa que nunca tinha ido a teatro!

(foto da matéria original)

A lei de incentivo existe em qualquer país civilizado do mundo. A gente não está falando de um privilégio nosso no país da falcatrua.

Imagino como é para você.
DN - Eu tenho recebido cada coisa por causa dessa peça! Estou muito animada. Se deixar eu fico aqui falando empolgada. Eu estou muito empolgada mesmo com o que está acontecendo. Vejo que o buraco é mais embaixo. Tem uma hora na peça que o Brecht põe na boca do Galileu a seguinte frase: “eu queria ficar embaixo da terra, onde não entrasse mais luz, só para saber o que é a luz. E o pior: o que eu sei, preciso passar adiante, como um enamorado, um bêbado, um traidor”. Essa coisa de passar adiante, essa coisa que o Galileu tinha, que o Brecht tem, de querer passar para muitos… Não é à toa que ele escreveu três versões dessa peça, que é a única biografia que ele fez. Ele era completamente obcecado pelo Galileu, pelo personagem, porque se identificava profundamente, e eu tenho essa identificação com os dois, com essa coisa de querer passar adiante. Li esse texto e me inquietei, fiquei doida. Eu tinha outros projetos, mas falar esse Galileu era mais urgente e é uma coisa que está me tomando de um jeito… Para você ter uma ideia, eu vejo uma reação nessa peça que nunca tinha visto. O cenário, que é muito bonito, tem uma arena pendente que lança a gente no meio da plateia. Eu passo a maior parte da peça ali nessa arena, então vejo muito a cara da plateia. Em algumas falas, vejo cabeças balançarem, dizendo “sim” com a cabeça, em um gesto inconsciente, de concordar com o texto. É bonito demais, porque você vê que a pessoa está completamente tomada pela ideia. São 2h20 de espetáculo, às vezes 2h15, e ninguém sai, ninguém dorme. Todo mundo de boca aberta. É lindo de ver. Fico vendo que minha ideia não era tão maluca assim. Fico feliz.
Em contrapartida, a gente tem vivido um retorno à marginalização da figura do artista, que tem até a ver com o que você diz de falta do culto à arte. Com a crise política, as distorções sobre a Lei Rouanet, e a polifonia na Internet, de repente vimos os artistas sendo chamados massivamente de “vagabundos”. Como você se coloca diante desse panorama?
DN - Ai, gente, é muita desinformação, né? Eu acho que as pessoas que falam da Lei Rouanet não estão informadas, não viram. Tem tudo no Diário Oficial. Faz a conta. Eu convido as pessoas a fazerem a conta. Na verdade, qualquer país desenvolvido do mundo tem sua arte subsidiada, amparada pelo governo, porque a arte não se paga em si. Sem o pontapé inicial dado pelo patrocínio, tendo que pagar os mínimos aos teatros, a divulgação e a produção inicial, já quebra uma peça. Você não recupera isso em bilheteria. Para fazer uma peça desse tamanho… Eu acho que talvez você precise rever vários pontos da Lei Rouanet, mas não é para questionar essa lei que trouxe uma efervescência cultural desde então. A lei de incentivo existe em qualquer país civilizado do mundo. A gente não está falando de um privilégio nosso no país da falcatrua. O que é isso?! É uma falta de informação. Eu me sinto ofendida. O que é isso?! Eu trabalho pra caramba!
O Aderbal Freire-Filho está até processando umas pessoas.
DN - É absurdo o que as pessoas falam. A Internet é muito covarde. Fala isso aqui na minha cara. Vem no teatro me falar isso, que vou te mostrar as contas, entendeu?
Você acompanha essas discussões na Internet? Dá atenção a isso?
DN - Eu não dou atenção, porque a Internet me suga a alma. Agora tenho uma página no Facebook e no Instagram basicamente para divulgar a turnê da peça. Vi que realmente era importante ter isso para divulgação do “Galileu” por aí. As pessoas estão muito ligadas na Internet e é uma força muito grande de comunicação. Mas eu não vou ficar o dia inteiro fazendo esse desfile de opiniões e pouco fato. É muita opinião para pouco fato. Me conta uma história! Me dá uma história, que aí eu construo minha vivência a partir da sua história. Não importa a opinião do outro sem a vivência, então é muita opinião. “Olha o que eu acho”. “Olha o que postei”. “Olha o que eu disse”. A maioria dessas coisas de “olha o que eu disse”, não diria na cara do sujeito. Ah, me poupe! (risos) É muito triste o que a gente está vivendo. Nesse desaviso, umas vão se linkando às outras e vai virando um mar de radicalismos e imbecilidade. É muito triste, porque não tem fundamento. Quando leio essas discussões, a primeira frase que vem à minha cabeça é: “gente, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa”. Você quer discutir sobre o assunto e não te deixam. Qualquer coisa que você fale significa um lado ou significa o outro. Olha esse Fla x Flu ridículo que a gente viveu aí, que você não pode falar nem isso nem aquilo, porque senão está de um lado ou de outro. É muito triste o que a gente viveu agora, porque é um acinte à nossa inteligência e à nossa capacidade de ponderar, de sensatez, de falar “eu acho isso, mas também acho aquilo, que talvez seja uma parte que eu discorde…”. Não, você tem que colocar seu pensamento em caixinhas.

Eu adoro a comédia, adoro a comédia da ideia, de usar o humor como agente poderoso de reflexão. Você comunica o que quiser com humor e ironia. Não tem limite pra isso.

Até o Brecht traz uma discussão sobre os meios de produção, sobre o ator mostrar que está atuando, um teatro menos adepto da ilusão, que eu acho que tem tudo a ver o Galileu ser interpretado por uma mulher nesse sentido…
DN - É! É muito brechtiano, na verdade! Um dos argumentos que me convenceram foi esse: é muito brechtiano uma mulher fazendo o Galileu. É engraçado, porque, na época que eu decidi fazer, nem estava tão em voga essa questão de gênero, e hoje ainda tem um plus porque é uma mulher fazendo um homem falando sobre o quanto concedemos, né?
Mas o que eu ia perguntar é o que te instiga a apresentar esse espetáculo nesse momento político brasileiro. Eu vi que vocês foram até para Brasília.
DN - Nossa, foi incrível! (risos) A gente chegou a Brasília e estavam todas as sessões esgotadas. A primeira vez que a gente abriu sessão extra foi lá. É incrível. A peça sempre será atual. Ela é atual em qualquer época que for montada. Mas agora ela parece uma peça encomendada, parece que a gente ensaiou às pressas. Eu fico feliz de estar podendo falar, ter essa voz nesse momento, mas ao mesmo tempo muito triste por ver cada vez mais os acontecimentos criarem uma força cada vez maior para a peça. É irônico, porque estou feliz de fazer a peça, mas triste por ver que cada vez ela fica mais propícia. O que a gente viu acontecer e você falar desse cara que vai vendendo a alma… As justificativas todas, os jogos políticos… Quando você lê as biografias do Galileu, você vê que foi mesmo uma questão política. Ele só não foi para a fogueira porque tinha muitos conhecidos no Vaticano, no poder, e foi poupado. Foi convidado a negar publicamente e o mantiveram em uma prisão domiciliar.

Quando você faz muita comédia, você fica com o ouvido doutrinado, treinado, porque é quase como música: a risada não é sempre a mesma. A risada tem várias nuances.

Brecht também faz questão que o teatro político, engajado, seja divertido. Analisando sua carreira, essa é uma busca sua como artista também, né?
DN - Eu acho que talvez por isso eu me identifique tanto com ele. Mesmo no “Retrato Falado”, a gente fazia muitas coisas que ali dentro tinha algo para reflexão. Eu adoro a comédia, adoro a comédia da ideia, de usar o humor como agente poderoso de reflexão. Você comunica o que quiser com humor e ironia. Não tem limite pra isso. Ao contrário do que muita gente pensa, que é para você “aliviar”, eu não sinto que alivie. O humor confirma que aquilo passou pela inteligência do sujeito. A comédia é completamente aliada à inteligência: você só ri daquilo que você compreende. Quem não entende a piada não ri. A comédia recruta a inteligência. Estou falando da comédia de texto, né? Nunca gostei de fazer as gracinhas de forma. Aliás, eu tiro essas gracinhas de forma, porque às vezes atrapalham a clareza do texto.
O que seria uma gracinha de forma, por exemplo?
DN - As pessoas rirem do jeito que você está falando, e não daquilo que está falando.
Entendi.
DN - Quando você consegue que a plateia ria por uma coisa seríssima que você está falando, mas de uma maneira cômica, você está assegurando que aquela ideia foi capturada.
E às vezes tem até aquele riso culpado, né?
DN - Você sabe que tem uma risada que eu chamo de risada “pior que é”. Que é uma risada que vem toda hora. É uma risada que é meio interrompida. Quando você faz muita comédia, você fica com o ouvido doutrinado, treinado, porque é quase como música: a risada não é sempre a mesma. A risada tem várias nuances. É uma espécie de voz. Quando você escuta essa risada “pior que é”, a pessoa ri e pensa “pior que é, a gente faz isso mesmo”.
Para mim, é “risada culpada”.
DN - É, uma risada de identificação e culpa! (risos)
Nos últimos anos, com uma conscientização maior das políticas de minorias, tem crescido uma discussão sobre limites do humor e sobre o politicamente correto. Quais as suas considerações sobre esse debate?
DN - Eu acho que o limite do humor é a delicadeza, né? Eu adoro o que é engraçado, mas adoro a gentileza também. Só que, por essa coisa da Internet que estávamos falando, às vezes a gente está entre amigos, com colegas, e alguns são polícias de vírgula. As pessoas estão policiando vírgula. Se você usa uma palavra ou outra, a pessoa fala “ah, não…”. E você diz “mas não foi isso que eu quis dizer…”. A gente vai perdendo a sensatez em meio a um mar de radicalismos. Eu acho que a gente ainda tem muito a caminhar, mas deu passos muito grandes, com relação ao negro, por exemplo, que a gente tem que se policiar. Acho mesmo que tem que policiar sua avó falando (risos). Você tem que ir atrás disso. Eu fico muito feliz dos meus filhos hoje verem os casais gays de mãos dadas e abraçados, sabe? E não ficarem apontando. Nunca fizeram isso. É a coisa mais normal do mundo você ver os casais abraçados, se beijando. Eu acho que isso é um ganho enorme que a gente teve. Mas tem que ter cuidado para não virar polícia de vírgula, porque a gente se meteu em lugares radicais que tiram a nossa sensatez, que tiram nossa capacidade de ponderar e contextualizar as coisas.
Brecht propõe o teatro didático, de aprendizagem. O que você tem aprendido fazendo essa peça?
DN - Esses nomes acadêmicos para o Brecht – teatro didático, teatro épico, o distanciamento – me fazem pensar que ele ficaria muito bravo com tanta teorização em cima do teatro! (risos) Ele com certeza fez um teatro que mudou o teatro no mundo, mudou o mundo. Ele é um poeta e dramaturgo de muita importância. Mas sinto que o que ele propõe, na forma como escreve, esse teatro épico, do teatro que narra, o ator em cena que narra, faz a gente aprender sobre a profissão de uma maneira muito bonita: o que é o intérprete, você ser filtro de um autor, e se apoderar das palavras dele, pegar aquilo para você em cena. Ele tem um poema muito bonito que fala: “você, artista, que quer ser o cara que cria ilusão, saiba ao mesmo tempo sobre a cena que faz e sobre o que é essa cena no mundo que você habita”. É o tempo inteiro entender que você é um sacerdote desse negócio chamado teatro e você está ali para dizer coisas também. Talvez venha daí essa identificação tão grande que eu sinta com ele.
O fato da Terra não ser o centro do universo, do sol não girar em torno do ser humano, é uma mudança de perspectiva muito grande. Faço um link com a cultura de celebridades. É muito fácil uma pessoa famosa ter suas egotrips e se sentir o centro de tudo, porque as pessoas ao redor a tratam como se fosse. Eu não te conheço, mas o que a gente sempre ouve sobre Denise Fraga é que você é muito pé no chão, simples e trata todo mundo de igual para igual. Tem algum esforço para não se deixar levar pela megalomania? Esse culto a celebridade nunca mexeu com você?
DN - Na verdade, isso nunca me seduziu muito. O que me seduziu sempre foi esse negócio do teatro como tribuna mesmo, o lugar onde você conta histórias, fala coisas, diverte as pessoas. Desde o início. Aí veio a televisão… Eu achava que nem podia ser atriz. Fazia teatro meio por hobby. Meu último professor no curso foi o Cláudio Correa e Castro [1928-2005] e ele falava “você tem que se profissionalizar”. Eu achava que não era pra mim. Eu me tornei atriz, mas continuo reles mortal, como era, que achava que não podia ser atriz. (risos) Nunca deixei de sair na rua por causa das pessoas… Existe um assédio, mas não é nada impossível de lidar. Acho que, para um galã, é difícil mesmo. Mas o que quero dizer é que não foi um esforço. Sou muito seduzida pela minha profissão e agradeço todo dia. Agradeço mesmo. Às vezes quando estou em cena, falando o texto, penso “gente, que felicidade a pessoa poder ser isso na vida e ainda pagar as contas com isso!”. Eu tenho uma coisa que foi indo assim, até por isso eu seja tão conectada com o teatro que quero fazer e o jeito que quis levar minha carreira.
Você fará uma participação na próxima novela das 21h da Globo. Pesquisei e vi que você não faz novela há 16 anos! A última foi “Uga Uga”!
DN - Contam 16 anos porque eu fiz o primeiro capítulo de “Uga Uga”, mas na verdade são 20 anos já! (risos) A última foi no SBT – novela, novela mesmo, de ficar oito meses na novela. Eu fiz quatro novelas só na vida: duas na Globo e duas no SBT.
Relembre como era o “Retrato Falado”:
Por quê? Não te interessa o formato da novela?
DN - Eu fiquei nove anos no “Retrato Falado” no “Fantástico”, onde não fiz só o “Retrato Falado”. A gente fez outras dramaturgias dentro daqueles dez minutos: “Dias de Glória”, “Copas de Mel”, “Fazendo História”, “Te Quero, América”… Aquilo durou nove anos. Gravava em São Paulo, com uma equipe reduzida, em locação, na rua, com uma câmera só. Eu recebi alguns convites para novela na época, mas não podia desmantelar a equipe do “Retrato Falado”, que só existia ali em São Paulo, para parar e fazer uma novela. Era uma equipe tão azeitadinha, em um programa que eu adorava fazer. Mas não tenho essa coisa de “ah, não quero fazer novela”. Eu gostaria. Um personagem bacana: claro que gostaria de fazer. O que aconteceu é que, quando tive outros convites, sempre estava com projetos de teatro. Eu meio que venho emendando um projeto no outro. Eu tenho projetos! (risos) O problema é que eu tenho projetos. O problema não é um problema! Quando recebo o convite, às vezes não calhou de dar para desfazer ou ser em uma hora em que caberia na agenda. Agora deu certo porque é uma participação, só os primeiros três capítulos, então dava para fazer apesar de estar em turnê. É um personagem que tem poucos cenários, então dava para fazer.
O problema para você, então, é o tempo de duração da novela, né? Oito meses de dedicação.
DN - Não, não. Na verdade, se eu me programasse, dava. Se eu tivesse um convite com mais antecedência… Agora parece que as pessoas até estão se programando com mais antecedência. Não é pelo tempo. É que faço outras coisas. Não fico lá na minha casa esperando o convite da televisão tocar, entendeu? Quando você é produtora dos seus projetos, é muito difícil você parar. Quando você é produtora de si mesma, você é um patrão muito carrasco. Você não se deixa parar. Na medida que você é capaz de levantar o seu projeto, a sua produção, você não para nunca, porque você quer levantar as suas coisas. Mas eu adoro quando aparece um convite. Às vezes as pessoas têm uma ideia errada. Nos últimos trabalhos que fiz de cinema e televisão, escutei umas coisas assim: “que bom que você topou, eu achei que você só fazia seus projetos”. Nããããão! (risos) Eu adoro um convite. Dando para fazer, eu vou fazer.
Estava lendo uma entrevista antiga sua para a revista Marie Claire, de 2003…
DN - Nossa!
Pois é. Na época, você estava no “Retrato Falado” e falou que a TV ainda não tinha te possibilitado fazer “um pé de meia”. O senso comum é de que a TV é o veículo mais rentável para os atores, mas você vem conseguindo viver e criar seus filhos à parte disso…
DN - Mas eu fiquei muitos anos contratada da televisão. Fui contratada da TV Globo 18 anos e tudo que consegui construir, da minha casa e tal, sem dúvida nenhuma devo a essa minha vida da TV Globo. Consegui economizar dinheiro fazendo televisão, mas sempre junto do teatro. O teatro sempre me deu muito menos dinheiro que a televisão.
Isso que quero perguntar: é possível viver de teatro?
DN - Possível, é. Mas, quando você tem o parâmetro de dinheiro da televisão, você fica achando aquele dinheiro pouco. O que acho é que você tem que saber que existem outras riquezas. É o que a gente estava falando. Qual é o seu patrimônio? Sempre falo para os meus colegas: “quando você começa a ver que o grande problema é a cor do vidrotil da piscina, é melhor você se antenar, porque talvez sua alma de artista esteja se deteriorando”. Quando o grande problema é administrar o dinheiro… A televisão paga bem, mas as pessoas têm uma ideia muito errada de que somos todos ricos. Não é verdade. A gente não pode parar de trabalhar. A televisão paga melhor, paga um bom salário, mas não é isso… Às vezes fico pensando: imagine se a gente morasse nos Estados Unidos, ou na Venezuela que fosse… (risos) A Venezuela nem dá para falar, porque não é mais aquela produtora de novela que era. Mas, na Argentina, os atores ganham muito mais do que a gente. Em qualquer lugar.
Ah, é? Na Argentina, ganha mais?
DN - Na Argentina, ganha mais. Dá de cara. Talvez os grandes salários da TV Globo… Não sei, porque não sei o quanto as pessoas ganham. (risos) Mas não é assim como as pessoas acham. As pessoas têm uma ideia muito fictícia do que a gente ganha.
Você falou sobre a “alma de artista”. Para terminar, na sua opinião, o que diferencia uma atriz de uma artista?

DN - Alma de artista é um negócio que alguns engenheiros têm. Alma de artista é você conseguir perceber a vida enquanto ela passa, ter um olho para a própria existência, como se olhasse de camarote a vida. Você tem a capacidade de percepção, de assistir à vida. Por isso, muitos atores têm alma de artista. Alguns atores não têm. (risos) E alguns engenheiros têm. São pessoas que têm alma de artista e seguiram outra profissão. Às vezes vão ao teatro e, mesmo quando se trata de uma comédia, choram de emoção de se conectar com aquilo que seria uma coisa onde os canais deles estariam abertos em conexão com uma coisa muito maior. Eu acho que entender-se como artista é uma coisa parecida… Outro dia me perguntaram “Denise, você acha que todo artista tem que ser engajado?”. Eu falei que todo médico tem que ser engajado, todo jornalista tem que ser engajado. Engajado, se você for ver o valor dessa palavra, é você entender que faz parte de um todo, que a história é feita por nós. Brecht é rei de fazer você se lembrar disso, de que nós somos os responsáveis pelo curso da história. Isso é estar engajado. É fazer parte de um coletivo, de um todo. Eu sou engajado no todo. Nisso, todos nós deveríamos estar.

(foto da matéria original)

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Entrevista - Tônia Carrero

Nesta semana o Blog do Círculo Artístico Teodora traz até vocês uma Entrevista com a atriz TÔNIA CARRERO para a Revista Época em 2002. Atualmente a atriz tem 94 anos.
Apesar da idade avançada, assume estar cada vez mais polêmica e irreverente. Concordando ou não com tudo o que ela aponta, Tônia é uma grande dama do nosso teatro e a sua experiência pode ajudar a iluminar as perspectivas de jovens artistas!

http://revistaepoca.globo.com/EditoraGlobo/img/transp.gif"Estou velha, sim"

Aos 80 anos, a atriz confessa sofrer ao se olhar no espelho e adoraria ainda ser desejada, mas se diz feliz graças ao teatro

Beatriz Velloso, do Rio

'O teatro rejuvenesce.'

Tônia Carrero assume: está velha. Esquece nomes, os movimentos são mais lentos, o rosto já não é o mesmo - lindíssimo - de antes. Aos 80 anos, completados no dia 23 de agosto, perdeu o pudor de dizer que está menos bonita, menos atraente, menos esbelta. 'Olhar no espelho é uma tristeza', admite. Confessa também que se deprime ao pensar que não é mais desejada pelos homens. Demonstra a consciência da idade avançada até na peça A Visita da Velha Senhora, do suíço Friedrich Dürrenmatt, que estréia no Rio de Janeiro no dia 25 com ela no papel da velha do título. Mas, apesar do tom por vezes melancólico com que fala da velhice, se diz feliz. 'O teatro rejuvenesce.'
A atriz recebeu ÉPOCA em sua casa no bairro do Jardim Botânico, no Rio, usando uma moderna sandália cor-de-rosa de salto alto, dessas que as mulheres mais novinhas (e não as idosas) usam para sair à noite. Contou paixões secretas que teve e criticou colegas que trabalham na TV por dinheiro. Mas, antes de começar a conversa, fez um pedido que resgatou sua vaidade: 'Prefiro que não me chamem de senhora'
Nome:
Maria Antonieta Portocarrero Thedim
Família
Tem um filho (o ator Cecil Thiré), quatro netos e dois bisnetos
Casamentos
Viveu com o artista plástico e diretor Carlos Thiré, o também diretor Adolfo Celli e o empresário César Thedim

Tônia Carrero - foto do site Extra.globo


ÉPOCA - Como é, para você, uma mulher que foi muito bonita na juventude, chegar aos 80 anos?
Tônia Carrero - É estranho. Quando fiz 70, achava que aos 80 seria frágil, que as pessoas iam me olhar na rua e dizer (faz uma voz esganiçada): 'Olha aquela velhota tão fraquinha, coitadinha dela!' Passo longe disso, mas é claro que sinto diferença. Só tento fazer com que os outros não percebam. Não saio mais com as pernas ou os braços de fora, escondo as partes que entregam minha idade. Meu ritmo está mais lento para tudo, sinto mais dificuldade para levantar de uma cadeira, para lembrar de nomes. E olhar no espelho é uma tristeza. Quando fiz 60 anos, sofria muito ao lembrar como eu era e ver, em minha imagem refletida, que não estava mais tão bonita. Era muito sofrimento. Com o tempo, fui me acostumando. A gente se acostuma a tudo, né?
ÉPOCA - O que muda no amor?
Tônia - Ah, muda muito. Sinto uma falta danada de me entusiasmar por um homem, de me apaixonar.
“...o cinema é do diretor, o teatro é do ator e a TV é do patrocinador.”
ÉPOCA - Tem namorado?
Tônia - Não, estou sozinha. Não me sinto solitária, mas acho chato não ser mais desejada pelos homens. Lembro com saudade do tempo em que me arrumava porque sabia que me achariam bonita. O fato de nenhum homem me achar atraente a esta altura da vida é muito duro. Tenho a sensação de que, por causa disso, meu charme diminui loucamente.
ÉPOCA - Essa sensação se estende ao palco?
Tônia - Não, no palco é muito diferente. É maravilhoso, a gente consegue rejuvenescer. Quando estava com 60 anos, Sarah Bernhardt foi interpretar Joana D'Arc no teatro. A personagem tinha 16 anos, e todos achavam aquilo ridículo. Na cena em que Joana D'Arc é julgada, um homem pergunta a ela: 'Quantos anos você tem, minha jovem?' E ela respondeu: 'Dezesseis anos'. Falou aquilo com tanta convicção que a plateia inteira explodiu em aplausos (fica com a voz embargada). Ela sabia que podia interpretar uma garota aos 60 anos. Eu, aos 80, sei que posso fazer uma personagem de 60 anos em A Visita da Velha Senhora. Passo muito bem por uma mulher 20 anos mais jovem. Mas a melhor coisa de ficar velha é que hoje estou acima do bem e do mal: digo o que bem entendo, não tenho medo.
ÉPOCA - O que, por exemplo, você pode dizer agora que não diria antes?
Tônia - Hoje consigo falar sobre meus amores. Posso dizer que tive um caso com Rubem Braga (o escritor) e outro com Paulo Autran (o ator), enquanto era casada com Carlos Thiré. E sei que agora isso não abala em nada minha respeitabilidade. Coitado, o Thiré foi bem corneadinho... Mas o que ele fez comigo não foi brincadeira. Às vezes, chegava em casa e dizia: 'Sabe aquela sua amiga? Ontem saí com ela'. As amantes dele iam lá em casa, eu sabia de tudo.
ÉPOCA - Como foi sua paixão por Paulo Autran?
Tônia - Fulminante. Conheci Paulo e me apaixonei completamente por ele (os dois estrearam juntos no teatro em 1949, na peça Um Deus Dormiu lá em Casa). Meu filho Cecil (Thiré, hoje ator) era tão pequenininho... Achava Paulo um talento para o teatro, mas inventei de fazer uma peça com ele também porque queria uma desculpa para ficar perto. Eu disse: 'Se não for com ele, não faço'. Paulo era advogado e não queria largar a profissão. Só para me testar, pediu um salário absurdo. E eu dei. Deixei de receber meu salário só para ficar perto dele. Eu não ganhava um tostão. Com o tempo, a paixão foi acabando.
ÉPOCA - Você fala muito das mudanças vindas com o tempo. Mas, hoje, se sente bem?
Tônia - Muito bem. Melhor do que eu achava que estaria a esta altura. Eu me sinto mais inteligente, mais calma, lúcida e bem-disposta. Consigo até encostar as mãos no chão sem dobrar as pernas, olha só (levanta-se e mostra o corpo alongado). O que me entristece mais é perder amigos, vê-los partir. Meu truque agora tem sido arrumar amigos mais novos que eu, cercar-me de pessoas jovens.
ÉPOCA - Você tem algum problema de saúde?
Tônia - Não é exatamente um problema, mas tenho um dreno na cabeça. Há quatro anos caí da escada da minha casa e bati a cabeça na parede. Não aconteceu nada, mas dois anos mais tarde comecei a ficar com dificuldade para caminhar e descobri que estava com hidrocefalia (excesso de líquido no cérebro). Fiz uma pequena cirurgia e botei um dreno debaixo do couro cabeludo. Não vejo e não sinto nada. É como se tivesse um ladrão na minha caixa-d'água.
ÉPOCA - Quantas plásticas já fez?
Tônia - Fiz três no corpo: uma na barriga, outra na coxa e uma terceira nos seios. Todas com Pitanguy. Depois fiz mais duas no rosto. Agora faço só 'manutenções' periódicas, com aplicações de Botox. Aconselho qualquer mulher que tenha dinheiro a fazer plástica. Sou a favor. Nossa imagem física tem um efeito enorme sobre a imagem mental. É bom saber que, mesmo depois de velha, é possível andar um pouquinho para trás no tempo.
ÉPOCA - Gosta de assistir a programas na TV?
Tônia - Gosto de ver o trabalho dos meus companheiros. Mas tem uma coisa que me incomoda. José Wilker e Antônio Fagundes, por exemplo, são atores sensacionais. Aí empurram para eles uns papéis que não estão à altura do talento. Eles não podem fazer essas porcarias! Mas ganham tanto dinheiro que vale a pena. E eu também toparia, se ganhasse aqueles R$ 100 mil, R$ 150 mil. Minha vida seria muito melhor. O problema de trabalhar em televisão é que as pessoas começam a fazer coisas pelo dinheiro. É um conforto trabalhar num lugar que paga muito bem. Mas os que estão começando ganham uma vergonha, quase nada. Trabalham demais e vivem um regime de fome. A televisão hoje é dirigida pelo dinheiro. Paulo Autran sempre diz que o cinema é do diretor, o teatro é do ator e a TV é do patrocinador. Quem paga manda.
ÉPOCA - Você acha que a televisão está apelativa?
Tônia - Ah, essa coisa de pouca roupa, de mulher dançando, isso não me incomoda nada. Acho até engraçado. Não acredito que seja nocivo para a mocidade. Falar palavrão, mostrar a bunda... Tudo bem, para mim. Essas coisas são tão superficiais que não afetam ninguém. Aquilo de dançar na boquinha da garrafa horrorizou todo mundo, e hoje ninguém lembra. Esse negócio de pais ficarem proibindo crianças de ver TV não funciona. Deixem ver tudo!
ÉPOCA - Você já declarou sua admiração por Fernando Henrique Cardoso. No entanto, a classe artística reclamou muito das duas últimas administrações no que se refere à cultura, principalmente ao teatro.
Tônia - Acho essas reclamações uma injustiça. Num país onde não sobra dinheiro para educação e saúde, é preciso ter prioridades. O governo vai dar dinheiro para a cultura quando não tem suficiente para fazer escolas e hospitais? Não pode. Fernando Henrique se preocupou muito com essas duas coisas, e já acho isso um avanço. Fui ao presidente pedir dinheiro para montar minha peça, mas grande parte das verbas veio da iniciativa privada.
ÉPOCA - Mas, se o teatro fica na mão das empresas, não acaba virando uma arte do patrocinador, como você disse que acontece com a televisão?

Tônia - Não vira, não. Quem tem de dar dinheiro para a cultura são as empresas particulares. O dono do supermercado tem de investir em teatro. E isso não altera nosso trabalho. Ainda somos nós que escolhemos os textos, os elencos, e depois vamos procurar verbas. Quem não pode ir a Fernando Henrique, como eu fiz, pode ir à Caixa Econômica, ao Itaú, ao Banco do Brasil... Está cheio de empresa querendo patrocinar cultura.