quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Entrevista - Tônia Carrero

Nesta semana o Blog do Círculo Artístico Teodora traz até vocês uma Entrevista com a atriz TÔNIA CARRERO para a Revista Época em 2002. Atualmente a atriz tem 94 anos.
Apesar da idade avançada, assume estar cada vez mais polêmica e irreverente. Concordando ou não com tudo o que ela aponta, Tônia é uma grande dama do nosso teatro e a sua experiência pode ajudar a iluminar as perspectivas de jovens artistas!

http://revistaepoca.globo.com/EditoraGlobo/img/transp.gif"Estou velha, sim"

Aos 80 anos, a atriz confessa sofrer ao se olhar no espelho e adoraria ainda ser desejada, mas se diz feliz graças ao teatro

Beatriz Velloso, do Rio

'O teatro rejuvenesce.'

Tônia Carrero assume: está velha. Esquece nomes, os movimentos são mais lentos, o rosto já não é o mesmo - lindíssimo - de antes. Aos 80 anos, completados no dia 23 de agosto, perdeu o pudor de dizer que está menos bonita, menos atraente, menos esbelta. 'Olhar no espelho é uma tristeza', admite. Confessa também que se deprime ao pensar que não é mais desejada pelos homens. Demonstra a consciência da idade avançada até na peça A Visita da Velha Senhora, do suíço Friedrich Dürrenmatt, que estréia no Rio de Janeiro no dia 25 com ela no papel da velha do título. Mas, apesar do tom por vezes melancólico com que fala da velhice, se diz feliz. 'O teatro rejuvenesce.'
A atriz recebeu ÉPOCA em sua casa no bairro do Jardim Botânico, no Rio, usando uma moderna sandália cor-de-rosa de salto alto, dessas que as mulheres mais novinhas (e não as idosas) usam para sair à noite. Contou paixões secretas que teve e criticou colegas que trabalham na TV por dinheiro. Mas, antes de começar a conversa, fez um pedido que resgatou sua vaidade: 'Prefiro que não me chamem de senhora'
Nome:
Maria Antonieta Portocarrero Thedim
Família
Tem um filho (o ator Cecil Thiré), quatro netos e dois bisnetos
Casamentos
Viveu com o artista plástico e diretor Carlos Thiré, o também diretor Adolfo Celli e o empresário César Thedim

Tônia Carrero - foto do site Extra.globo


ÉPOCA - Como é, para você, uma mulher que foi muito bonita na juventude, chegar aos 80 anos?
Tônia Carrero - É estranho. Quando fiz 70, achava que aos 80 seria frágil, que as pessoas iam me olhar na rua e dizer (faz uma voz esganiçada): 'Olha aquela velhota tão fraquinha, coitadinha dela!' Passo longe disso, mas é claro que sinto diferença. Só tento fazer com que os outros não percebam. Não saio mais com as pernas ou os braços de fora, escondo as partes que entregam minha idade. Meu ritmo está mais lento para tudo, sinto mais dificuldade para levantar de uma cadeira, para lembrar de nomes. E olhar no espelho é uma tristeza. Quando fiz 60 anos, sofria muito ao lembrar como eu era e ver, em minha imagem refletida, que não estava mais tão bonita. Era muito sofrimento. Com o tempo, fui me acostumando. A gente se acostuma a tudo, né?
ÉPOCA - O que muda no amor?
Tônia - Ah, muda muito. Sinto uma falta danada de me entusiasmar por um homem, de me apaixonar.
“...o cinema é do diretor, o teatro é do ator e a TV é do patrocinador.”
ÉPOCA - Tem namorado?
Tônia - Não, estou sozinha. Não me sinto solitária, mas acho chato não ser mais desejada pelos homens. Lembro com saudade do tempo em que me arrumava porque sabia que me achariam bonita. O fato de nenhum homem me achar atraente a esta altura da vida é muito duro. Tenho a sensação de que, por causa disso, meu charme diminui loucamente.
ÉPOCA - Essa sensação se estende ao palco?
Tônia - Não, no palco é muito diferente. É maravilhoso, a gente consegue rejuvenescer. Quando estava com 60 anos, Sarah Bernhardt foi interpretar Joana D'Arc no teatro. A personagem tinha 16 anos, e todos achavam aquilo ridículo. Na cena em que Joana D'Arc é julgada, um homem pergunta a ela: 'Quantos anos você tem, minha jovem?' E ela respondeu: 'Dezesseis anos'. Falou aquilo com tanta convicção que a plateia inteira explodiu em aplausos (fica com a voz embargada). Ela sabia que podia interpretar uma garota aos 60 anos. Eu, aos 80, sei que posso fazer uma personagem de 60 anos em A Visita da Velha Senhora. Passo muito bem por uma mulher 20 anos mais jovem. Mas a melhor coisa de ficar velha é que hoje estou acima do bem e do mal: digo o que bem entendo, não tenho medo.
ÉPOCA - O que, por exemplo, você pode dizer agora que não diria antes?
Tônia - Hoje consigo falar sobre meus amores. Posso dizer que tive um caso com Rubem Braga (o escritor) e outro com Paulo Autran (o ator), enquanto era casada com Carlos Thiré. E sei que agora isso não abala em nada minha respeitabilidade. Coitado, o Thiré foi bem corneadinho... Mas o que ele fez comigo não foi brincadeira. Às vezes, chegava em casa e dizia: 'Sabe aquela sua amiga? Ontem saí com ela'. As amantes dele iam lá em casa, eu sabia de tudo.
ÉPOCA - Como foi sua paixão por Paulo Autran?
Tônia - Fulminante. Conheci Paulo e me apaixonei completamente por ele (os dois estrearam juntos no teatro em 1949, na peça Um Deus Dormiu lá em Casa). Meu filho Cecil (Thiré, hoje ator) era tão pequenininho... Achava Paulo um talento para o teatro, mas inventei de fazer uma peça com ele também porque queria uma desculpa para ficar perto. Eu disse: 'Se não for com ele, não faço'. Paulo era advogado e não queria largar a profissão. Só para me testar, pediu um salário absurdo. E eu dei. Deixei de receber meu salário só para ficar perto dele. Eu não ganhava um tostão. Com o tempo, a paixão foi acabando.
ÉPOCA - Você fala muito das mudanças vindas com o tempo. Mas, hoje, se sente bem?
Tônia - Muito bem. Melhor do que eu achava que estaria a esta altura. Eu me sinto mais inteligente, mais calma, lúcida e bem-disposta. Consigo até encostar as mãos no chão sem dobrar as pernas, olha só (levanta-se e mostra o corpo alongado). O que me entristece mais é perder amigos, vê-los partir. Meu truque agora tem sido arrumar amigos mais novos que eu, cercar-me de pessoas jovens.
ÉPOCA - Você tem algum problema de saúde?
Tônia - Não é exatamente um problema, mas tenho um dreno na cabeça. Há quatro anos caí da escada da minha casa e bati a cabeça na parede. Não aconteceu nada, mas dois anos mais tarde comecei a ficar com dificuldade para caminhar e descobri que estava com hidrocefalia (excesso de líquido no cérebro). Fiz uma pequena cirurgia e botei um dreno debaixo do couro cabeludo. Não vejo e não sinto nada. É como se tivesse um ladrão na minha caixa-d'água.
ÉPOCA - Quantas plásticas já fez?
Tônia - Fiz três no corpo: uma na barriga, outra na coxa e uma terceira nos seios. Todas com Pitanguy. Depois fiz mais duas no rosto. Agora faço só 'manutenções' periódicas, com aplicações de Botox. Aconselho qualquer mulher que tenha dinheiro a fazer plástica. Sou a favor. Nossa imagem física tem um efeito enorme sobre a imagem mental. É bom saber que, mesmo depois de velha, é possível andar um pouquinho para trás no tempo.
ÉPOCA - Gosta de assistir a programas na TV?
Tônia - Gosto de ver o trabalho dos meus companheiros. Mas tem uma coisa que me incomoda. José Wilker e Antônio Fagundes, por exemplo, são atores sensacionais. Aí empurram para eles uns papéis que não estão à altura do talento. Eles não podem fazer essas porcarias! Mas ganham tanto dinheiro que vale a pena. E eu também toparia, se ganhasse aqueles R$ 100 mil, R$ 150 mil. Minha vida seria muito melhor. O problema de trabalhar em televisão é que as pessoas começam a fazer coisas pelo dinheiro. É um conforto trabalhar num lugar que paga muito bem. Mas os que estão começando ganham uma vergonha, quase nada. Trabalham demais e vivem um regime de fome. A televisão hoje é dirigida pelo dinheiro. Paulo Autran sempre diz que o cinema é do diretor, o teatro é do ator e a TV é do patrocinador. Quem paga manda.
ÉPOCA - Você acha que a televisão está apelativa?
Tônia - Ah, essa coisa de pouca roupa, de mulher dançando, isso não me incomoda nada. Acho até engraçado. Não acredito que seja nocivo para a mocidade. Falar palavrão, mostrar a bunda... Tudo bem, para mim. Essas coisas são tão superficiais que não afetam ninguém. Aquilo de dançar na boquinha da garrafa horrorizou todo mundo, e hoje ninguém lembra. Esse negócio de pais ficarem proibindo crianças de ver TV não funciona. Deixem ver tudo!
ÉPOCA - Você já declarou sua admiração por Fernando Henrique Cardoso. No entanto, a classe artística reclamou muito das duas últimas administrações no que se refere à cultura, principalmente ao teatro.
Tônia - Acho essas reclamações uma injustiça. Num país onde não sobra dinheiro para educação e saúde, é preciso ter prioridades. O governo vai dar dinheiro para a cultura quando não tem suficiente para fazer escolas e hospitais? Não pode. Fernando Henrique se preocupou muito com essas duas coisas, e já acho isso um avanço. Fui ao presidente pedir dinheiro para montar minha peça, mas grande parte das verbas veio da iniciativa privada.
ÉPOCA - Mas, se o teatro fica na mão das empresas, não acaba virando uma arte do patrocinador, como você disse que acontece com a televisão?

Tônia - Não vira, não. Quem tem de dar dinheiro para a cultura são as empresas particulares. O dono do supermercado tem de investir em teatro. E isso não altera nosso trabalho. Ainda somos nós que escolhemos os textos, os elencos, e depois vamos procurar verbas. Quem não pode ir a Fernando Henrique, como eu fiz, pode ir à Caixa Econômica, ao Itaú, ao Banco do Brasil... Está cheio de empresa querendo patrocinar cultura.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

O Serviço Social e o Teatro do Oprimido

“O Serviço Social precisa descobrir o Teatro do Oprimido”, diz o diretor e educador Dimir Viana

Artigo publicado na página da CRESS de Minas Gerais, em 17/05/2012.

Na segunda-feira, 14 de maio de 2012, durante a cerimônia em comemoração ao Dia d@ Assistente Social realizada pelo CRESS-MG, o diretor e educador Dimir Viana apresentou uma demonstração do Teatro do Oprimido. Para além de um momento lúdico, a atividade buscou ressaltar a possibilidade de uso desta metodologia teatral como meio de intervenção do assistente social.
Criado por Augusto Boal na década de 70, o Teatro do Oprimido faz a junção entre o teatro e a ação social e política. Nesta entrevista, Dimir Viana fala sobre as potencialidades do Teatro do Oprimido e a possibilidade de articulação com o Serviço Social.

O Teatro do Oprimido nasce com a proposta de ser, ao mesmo tempo, arte, ação social e movimento político. Como esses três elementos se articulam numa apresentação?
Essa é a essência do movimento do Teatro do Oprimido. Antes de tudo, é uma arte inerente ao homem. Augusto Boal irá defender que todo ser humano tem o teatro dentro em si. “O ser humano é teatro”. O Teatro do Oprimido também é uma ação social porque trabalha com essa intencionalidade de intervir nas situações opressivas da sociedade. Augusto Boal quer fazer com que o teatro seja um meio para a transformação social. Vamos considerar essa palavra “transformação” como um conceito extraído de Paulo Freire, autor da obra Pedagogia do Oprimido que também teve influência sobre as formulações de Augusto Boal. É dentro desse conceito que está a figura do oprimido, para o qual se dirige a ação desse método teatral. Augusto Boal considera oprimidos todos os seres e atores sociais que têm alguma barreira, seja de ordem psíquica, política ou social, e possui ao mesmo tempo o desejo e a coragem de lutar contra essa força opressiva. Eles se distinguem dos deprimidos, que não têm esta energia para combater as condições de opressão. Por fim, o Teatro do Oprimido é movimento político exatamente porque tem a intenção de colaborar para a solução dos problemas da sociedade.

Paulo Freire - Foto Jornal GGN


O que é preciso para fazer Teatro do Oprimido?
Diferentemente de outras formas de teatro, essa é uma metodologia pra toda e qualquer pessoa que queira se expressar e fazer uso desse conjunto para intervir em questões emergentes em nível de opressão da sociedade. Não é necessário ser um artista, muito menos ser um exímio ator ou um exímio diretor. É um método de fácil acesso e simples, por isso ele é praticado nos 5 continentes. Mas é necessário que se estude para entender como funciona. É um método que precisa ser mais difundido num país onde perdura muita opressão até hoje.

Embora o criador do Teatro do Oprimido seja brasileiro, existem países mais familiarizados com a metodologia. Como você analisa essa disseminação mundial do Teatro do Oprimido?
O Teatro do Oprimido foi criado nos anos 70. Exatamente neste período, Augusto Boal parte para um longo exílio. Portanto, nós passamos praticamente duas décadas com um contato incipiente com essa metodologia. Porque Augusto Boal só volta ao Brasil no final dos anos 80, após a reabertura política. E antes desse período, ele viveu na França, onde criou um Centro de Teatro do Oprimido. Até hoje, o método é muito praticado por lá. Só mesmo no final dos anos 80, o Teatro do Oprimido começa a ser conhecido no país de origem. E nos anos 2000, tem início uma maior disseminação da metodologia no país inteiro graças a algumas iniciativas, como as atividades do Centro do Teatro do Oprimido do Rio de Janeiro. Um outro projeto relevante é o Teatro do Oprimido Ponto a Ponto, financiado pelo Ministério da Cultura e cujo objetivo é apresentar tal metodologia em todos os Pontos de Cultura e formar multiplicadores. Mas é claro que nas dimensões territoriais do Brasil, muito ainda precisa ser feito.

Augusto Boal dizia que o Teatro do Oprimido não é uma técnica específica, mas sim um conjunto filosófico que permite a expressão cênica de qualquer pessoa, sendo ator profissional ou não. Quais são as bases desse conjunto filosófico?
O Teatro do Oprimido na verdade não se resume a uma técnica. É um conjunto de técnicas representado por uma árvore não tão cartesiana. Na copa, nós temos o teatro jornal, o teatro do invisível, o teatro fórum, o teatro legislativo, o arco-íris do desejo, etc. Essas são pelos menos 5 das técnicas do Teatro do Oprimido. Sendo que os primeiros passos para adentrar nessas técnicas são os jogos. O Teatro do Oprimido tem um arsenal de mais de 400 jogos para que qualquer pessoa possa se expressar. E esta árvore tem suas raízes fincadas no solo da estética do oprimido, da ética e da solidariedade. Essas raízes são como introitos de diálogo com várias áreas de conhecimento, tais como a pedagogia, a sociologia, a filosofia, a educação, dentre outras. Portanto, é realmente um conjunto filosófico, um amplo pensamento teatral.

Augusto Boal - Foto do arquivo Funarte


Já que não se resume a uma técnica específica, como identificar que um espetáculo é Teatro do Oprimido?
Uma apresentação do Teatro do Oprimido pode ser identificada a partir de alguns elementos. Vamos falar especificamente da técnica mais praticada que é o teatro fórum. É uma peça teatral que tem uma conotação popular. Em outras palavras, sua linguagem é menos rebuscada e mais clara, acessível a qualquer espectador. É um teatro que não pode ser surrealista e tem que deixar a realidade transparecer. Outra característica do teatro fórum é que a situação de opressão é a dramaturgia, dentro da qual irão estar evidentes as figuras do opressor e do oprimido com seus respectivos aliados. São retratadas histórias com início, meio e fim. E ao final, o opressor vence o oprimido, deixando a situação de opressão suspensa. Nesse momento, entra o curinga, figura fundamental no Teatro do Oprimido que é responsável pela mediação. Ele é o apresentador, o mestre de cerimônias e o entendedor maior do problema social retratado. Então ao final, a plateia não volta passivamente para casa. O curinga aparece e pergunta se alguém tem alguma ideia para interferir na situação. Abre-se a possibilidade do espectador intervir não apenas com o discurso, mas entrando na cena, substituindo a figura do oprimido e combatendo os seus opressores. E assim, o espectador deixa de ser mero espectador e se torna espect-Ator. Nesse sentido, é um espetáculo muito vibrante e vai além de toda a tradição do teatro ocidental.

Existe duração ideal para este tipo de teatro?
O ideal é que seja uma apresentação não muito longa. Normalmente, faço montagens de no máximo 20 minutos, porque uma sessão completa de teatro fórum pode durar horas. Também pode durar muito pouco tempo. Isso vai depender do nível de dificuldade dos problemas encenados e do interesse dos espectadores. Depende também da interação entre o curinga e o público.

A ideia de interatividade com o público tem sido muito explorada pela arte na contemporaneidade, sendo ainda estimulada pelas novas ferramentas tecnológicas. Mas é impressionante a precocidade do Teatro do Oprimido, pois Augusto Boal vislumbrou as potencialidades de uma apresentação interativa já na década de 70. De lá pra cá, existe algum trabalho para conjugar as técnicas do Teatro do Oprimido com o desenvolvimento da tecnologia?
O Teatro do Oprimido é um teatro muito moderno que rompe com uma tradição artística que servia apenas para o entretenimento e mera fruição do espectador. O fato de trazer o público pra dentro da cena foi realmente uma grande revolução. Ele não pretende ser um teatro comercial, e sim um teatro de participação política e social. Mas com relação às novas linguagens, o Teatro do Oprimido busca se manter como uma arte essencialmente do ser humano. É um espetáculo presencial e dialógico, do homem com o homem. No meio dessa evolução das tecnologias e das mídias, o Teatro do Oprimido passa a ser um reduto, quase uma espécie de reserva ecológica da ação humana em forma de arte. Eu desconheço particularmente o Teatro do Oprimido como uma modalidade que faça uso constante das novas tecnologias. Ao contrário, ele em si já é uma tecnologia moderna em relação à trajetória do teatro. Uma tecnologia nada mecanicista ou cibernética. É uma forma artística muito factível e popular, passível de ser usado em qualquer lugar do mundo, seja numa tribo indígena, numa comunidade de analfabetos, nos presídios, etc.

Se o Teatro do Oprimido não segue a lógica de mercado, como ele se mantém?
A sobrevivência do Teatro do Oprimido vai depender de quem trabalha com ele. Muitas vezes, são pessoas ou grupos organizados ligados a sindicatos, escolas, entidades e organizações não governamentais, que têm os seus projetos específicos. A gente percebe, por exemplo, que o Centro Teatro do Oprimido do Rio de Janeiro levanta recursos através de diversas atividades, ministrando cursos ou oficinas e desenvolvendo projetos ligados a editais do Governo Federal. O Teatro do Oprimido não é um teatro para vender ingresso. Ele só acontece quando há o interesse e a necessidade transformadora de uma ou outra comunidade.

Mas existe alguma coisa que pode ser feita para estimular esse interesse nas pessoas?
Em primeiro lugar, precisamos entender que o Teatro do Oprimido não é nenhuma profilaxia social. Não é uma panaceia para os problemas da sociedade. Ele é um instrumento como outros que existem. Mas ele se destaca como um meio eficaz para suscitar nos participantes um mecanismo mais vivo de participação. Vamos pegar o exemplo do teatro legislativo, que nada mais é do que o teatro fórum, onde as pessoas podem propor leis relacionadas ao problema social encenado. Neste espetáculo, existe uma célula metabolizadora, formada por um grupo de advogados. O público recebe uma senha e, no desenrolar da apresentação, qualquer pessoa pode ter a ideia de propor uma lei. No final da sessão, recolhem-se as sugestões e a célula metabolizadora, ali mesmo, vai apresentar as três melhores propostas de lei formuladas. O público então vota a de maior interesse popular e a vencedora é encaminhada para as casas legislativas, seja municipal, estadual ou federal. Quando foi vereador no Rio de Janeiro, Augusto Boal aprovou por meio do teatro legislativo várias leis em beneficio da população. Neste sentido, é outro avanço desse teatro transformador.

Na sua avaliação, o Teatro do Oprimido tem sido disseminado de maneira eficaz?
Creio que sim. Os multiplicadores de Teatro do Oprimido são, normalmente, muito comprometidos com os princípios deixados por Augusto Boal. Percebo que o que falta é mais Teatro do Oprimido nos espaços de formação, principalmente nas universidades. As escolas de Teatro ou mesmo os cursos de Comunicação, de Sociologia, de Serviço Social e de Psicologia poderiam promover o Teatro do Oprimido. Esses são espaços onde essa metodologia pode ser multiplicada, além daqueles mais convencionais onde ela serve como instrumento para militantes das causas populares.

Existem trabalhos do Teatro do Oprimido em instituições diversas tais como em escolas, hospitais, clínicas psiquiátricas, organizações não governamentais, instituições que atendem a população de rua e de periferia, etc. São espaços comuns à atuação do assistente social. De que forma é possível estabelecer um vínculo entre o Teatro do Oprimido e o Serviço Social?
Se o Serviço Social lida com os problemas da sociedade que exigem uma intervenção, eu percebo que o Teatro do Oprimido pode ser uma espécie de instrumental para os profissionais dessa área. É preciso estabelecer um elo, já que o Teatro do Oprimido não é uma metodologia para artistas. É uma metodologia combatente. Augusto Boal dizia que, embora tivesse apreço pelos artistas, seu interesse maior era por não artistas. Por esse raciocínio, penso que o Teatro do Oprimido possa ser acessado pelos profissionais do Serviço Social, visto que se trata de uma ação criativa, capaz de convocar as pessoas para um exercício estético e politizador, ampliando assim as formas de se trabalhar no cotidiano da profissão.

Mas o que precisa ser feito para esse encontro realmente acontecer? Apresentar o Teatro do Oprimido aos alunos da graduação é uma estratégia?
Esse é o primeiro passo: a formação do pessoal. Seria extraordinário se os currículos dos cursos absorvessem esse conteúdo, aproximando os formadores do método e os novos profissionais. Em outras palavras, eu acho que o Serviço Social precisa descobrir o Teatro do Oprimido.

Como se desenha essa parceria do seu trabalho com o CRESS-MG e quais as perspectivas?
Este contato se inicia pelas vias do conhecimento. Porque o Teatro do Oprimido está calcado numa série de pensamentos articulados. Augusto Boal se enveredou pelas obras de Karl Marx e de Paulo Freire, e fez releituras nos teatros de Aristóteles e de Bertolt Brecht. Então, é um constructo de um nível de conhecimento que pode ter um diálogo muito profícuo com o Serviço Social. Existe uma linguagem comum, pautada na intervenção e na transformação social, em favor do bem coletivo e dos direitos humanos. Então eu vejo que este contato está se desenhando por meio disso. E aí vislumbramos a possibilidade de multiplicação do método, porque esse é o grande interesse: multiplicar. Ainda não tem nada definido, mas estamos abertos para cursos e oficinas.


Quem é Dimir Viana

Dimir Viana - foto de seu blog profissional


Dimir Viana começa sua experiência com teatro nos anos 80, por meio de grupos amadores. No final desta mesma década, ele ingressa no Teatro Universitário da UFMG, embora não chegue a concluir o curso por motivos pessoais. De 1991 a 1993, ele retoma sua formação na área através do Curso de Formação de Atores do Palácio das Artes (Cefar). Naquele período, ele fundou com outros colegas o grupo Trupe Pierrot Lunar, ainda em atividade. Na sequência, teve contato com os conceitos da antropologia teatral, fundado a partir de estudos antropológicos do italiano Eugenio Barba, que analisam o homem em estado de atuação. De 1995 a 2000, Dimir Viana vive na Itália. Ali, ingressa no grupo Teatro Proskenion. Trata-se de um grupo de teatro e de pesquisa que organiza anualmente a Universidade do Teatro Eurasiano, evento importante daInternational School of Theatre Anthropology. Em 2000, quando retorna ao Brasil, gradua-se em Teatro pela UFMG. Estuda Teatros Orientais e História da Dança e do Mimo na Universidade de Bolonha, novamente na Itália. Paralelamente, fundou o grupo Albatroz, onde dirigiu algumas peças destacando-se uma trilogia sobre a militante comunista Olga Benário (Uma carta para Anita, Olga Benário e Olga, elegia de um campo sem flor).

A relação de Dimir Viana com o Teatro do Oprimido tem início já no fim dos anos 80, quando começa a se interessar teoricamente pela metodologia. Na volta ao Brasil, em 2000, ele encontra tempo para participar de cursos no Centro do Teatro do Oprimido do Rio de Janeiro, inclusive com a presença de Augusto Boal. E dali por diante, começa a aprofundar suas pesquisas. Em 2008, ele participa do Curso de Multiplicadores do Teatro do Oprimido, promovido pelo Ministério da Cultura. E no ano de 2011, conclui seu mestrado em Educação, no qual realizou um estudo sobre o Teatro do Oprimido e as implicações metodológicas na educação de adultos.

domingo, 31 de julho de 2016

MULHERES NO TEATRO DE GARCÍA LORCA

Mulheres que lutam. Do civil no teatro lorquiano.
Por Lorenzo Spurio
Publicado em 30 de março de 2016, em http://www.lamacchinasognante.com/ com o titulo: 

Donne che lottano. Del civile nel teatro lorchiano

Tradução de Claudia Venturi

Lorenzo Spurio - foto da matéria original

Lorenzo Spurio nasceu em Jesi (Ancona/Itália) em 1985. Publicou Antologias poéticas entre 2014 e 2016, coletâneas de narrativas entre 2012 e 2015, críticas literárias entre 2011 e 2015 e ensaios sobre poesia italiana contemporânea, em 2015. Em 2011 fundou a revista online de literatura «Euterpe». É Presidente do Prêmio Nacional de Poesia “L’arte in versi” / Jesi e Presidente do Júri nos prêmios literários “Città di Fermo”, “Città di Porto Recanati”, “Poesia senza confine” (sez. dialetto) di Agugliano. Foi finalista na 27ª edição do Prêmio de Literatura Camaiore – Obra Prima com Neoplasie civili (2015) e o 1° prêmio pela poesia individual no Concurso Internacional “Città di Ancona” organizado pela Associação “Voci Nostre” (2016).









Mulheres que lutam. Do civil no teatro lorquiano.

Quando Federico García Lorca foi assassinado, o vislumbre da morte já velejava há alguns meses sobre toda a Espanha. As milícias antinacionalistas, infiltradas em um impreciso e muito amplo grupo republicano em tempos variados, se tornaram responsáveis por ataques diretos, saques, violências e verdadeiras represálias não raramente até em ambientes religiosos. Muitos homens caíram nos primeiros meses daquela que rapidamente seria transformada em uma das mais conhecidas guerras civis da Velha Europa. Se não a mais longa, sem dúvida uma das mais sanguinárias e hediondas. Poucos dias antes, no qual o corpo do poeta de Granada, como atraído pela lógica tremenda de quem ergueu o ódio entre os iguais em condições imprescindíveis para um (pseudo) renascimento, rompia cada vínculo com o mundo natural e se tornava um corpo ausente (para invocar uma expressão sua, empregada no Llanto por Igncio Sánchez Mejías, composição da queda e da saudade que leva a um sentimento forte de real niilismo), García Lorca tinha perdido o amado cunhado, Manuel Fernández Montesinos que, como Prefeito vermelho[i] da cidade de Granada, havia caído precocemente pelas atrozes vinganças dos republicanos. Um luto grave, imprevisto enquanto o clima de ódio e de violências transversais estivesse na ordem do dia, que atingia não só a Capital, onde se discutiam questões e onde o Rei já tinha deixado o seu posto, sem abdicar, da função da Segunda República[ii], mas no ambiente da província, naquela Granada do desencanto e do idílio que o poeta havia cantado em obras memoráveis, quais Suítes e Cancioneiro Cigano.

Federico García Lorca - foto em queerblog.it


Uma Granada na qual, embora o poeta tenha movido os primeiros passos em direção do ambiente campestre e a profundidade de um mundo popular ligado à vida dos campos rico de oralidade e nas suas tradições, deveria residir um certo sentimento de tristeza em Lorca que, de fato, em uma poesia falava da “tristeza remota”, da “tristeza nativa” e de uma “infância intranquila”. Trata-se – hoje podemos dizer, tendo em viva consideração o seu percurso literário e humano – de uma abertura ao universo íntimo que o poeta nos permite em chave lírica, a via expressiva mais agradável para ele, na qual, aliás, não é difícil identificar uma personalidade realmente suscetível e problemática, fortemente introspectiva, em um certo sentido particularmente útil até mesmo para os historiadores e os biógrafos para a construção de um claro retrato falado das atitudes.
Como se observará neste texto, toda a atividade literária de Federico García Lorca girava em torno de um grande amor no confronto com a palavra, consciente de que nela reside um potencial evocativo e socialmente importante. A literatura lorquiana possui, de fato, o gosto do simples: o ambiente do campo, as vicissitudes dos animais que parecem dialogar entre eles com extrema verossimilhança, as relações familiares e as lógicas de contraste que se instauram no mundo da província quando a intriga e a mancha da honra tomam à dianteira, de modo que se tornam variáveis capazes de traçar o destino do homem.
Na nutrida literatura dramatúrgica de García Lorca – pouco conhecida, mas que o torna um dos maiores escritores de teatro do século passado – ele colocou em evidência alguns assuntos de difícil trato para os seus tempos com dois objetivos fundamentais: o primeiro era a sua convicção de que o teatro não é outra coisa se não poesia que “se eleva dos livros e se torna humana”[iii] e o segundo era  sua coparticipação sentida nas condições de desconforto do homem. Célebre são as suas palavras nas quais afirma que a sua colocação na sociedade será aquela dos que estão ao lado dos excluídos[iv]. Sobre isto ele testemunhará com a sua atividade literária, com o seu espírito pacato e sensível (se recorre à literatura memorialística em apoio ao que se diz por meio da qual é possível definir o autor não enquanto literato, mas enquanto homem na riqueza de seus dotes e da forte caridade).
No campo teatral, García Lorca demonstrará, desafiando com a cabeça erguida, a ideologia reacionária que logo controlaria e eliminaria diferentes posicionamentos, enquanto o seu vínculo com o outro (aquilo que hoje nós definiríamos como uma ideia simplista e preconceituosa de “diferente”) fosse sentido e radicado na profundidade das crenças, na empatia das relações, na grande confiança em um mundo de compartilhamento. García Lorca não foi um dos tantos utópicos a esperar que se pudesse obter o fim da barbárie em um país, como o seu, onde a luta armada era apenas iniciada. Não foi sequer um indiferente, um daqueles que julga de acordo com a conveniência e com as situações que se apresentam, de tomar determinadas posições ou de favorecer a sua aproximação a certas tendências das quais se distanciaria, talvez, em um segundo momento. A natureza definidamente solidária do homem, a sua fiel subordinação ao mundo popular, guardião dos arcanos e das leis da natureza, a erudição permitida até com a participação na Residência dos estudantes de Madri, o seu vínculo direto e inseparável com a música popular (Manuel de Falla) e o folclore andaluz (a tradição cigana), o irmanamento ao mito das águas, a religiosidade destemperada, mas viva, como possibilidade, a profunda amizade com Fernando de los Ríos (1879 – 1949)[v], são apenas alguns dos elementos que, junto com a ideia-genialidade do teatro itinerante de La Barraca, fez dele um homem distintamente de esquerda, próximo às intenções e opiniões de uma equipe política que, na Espanha, naquele período era muito complicada porque subdividida em partidos pequenos, frequentemente sem guias carismáticos.
Se bem que no curso da história houve, e persiste ainda nos dias de hoje, quem sustentasse que o autor não era de esquerda, nem vermelho perigoso (como diziam os membros da Falange que depois o assassinaram) não é possível enfrentar discursos relativos à figura do poeta se não se abstrair isto. O autor não era, de fato, estranho a atividades conduzidas por ambientes ligados à esquerda (de matriz marxista, inclusive), existem provas de assinatura colocada em numerosos manifestos que foram elaborados na época contra a autoridade fascista no país e fora dele. Recordando, de fato, a sua assinatura no manifesto que muitos intelectuais subscreveram contra o despotismo de Salazar no país vizinho, Portugal. Por essa filiação a uma ideologia adversa e muito perigosa, a comunista, o autor seria logo estigmatizado e afastado dos ambientes aos quais a classe conservadora, que estava adquirindo um forte prestígio, não considerava mais a sua presença idônea. Até mesmo La Barraca, seu projeto idealizado junto a Eduardo Ugarte voltado a levar aos pequenos centros campestres o teatro diretamente ao ar livre, como acontecia antigamente, passou a ser mal visto pela direita que via nesta atividade uma intenção voltada à doutrinação comunista.
Por estas razões (poderíamos relatar muitos outros exemplos reevocando momentos documentados) García Lorca, de amigo dos excluídos e de excluído que era ele mesmo por ser homossexual, torna-se logo um inimigo público. A sua personalidade, tão pronunciadamente diversa e subversiva, que não se submetia ao código de conduta estabelecido pela classe fascista, imoral e despreconceituosa era o sinal de uma erva podre recém-nascida que deveria ser subitamente extirpada de modo que o bom gramado não viesse a sofrer. Se antes eram o desprezo e o tédio o que recebia dos ambientes de direita, agora ele passava a ser vigiado porque era, precisamente, considerado um meio eficaz de uma propaganda política que não o consentiriam de fazer. Transformada em domínio público, a baixa consideração que ele tinha para as direitas, que o consideravam um depravado, uma “bicha” e um espião russo, o evento que provavelmente seria o mais deprimente para ele acontece na estreia de Yerma, em dezembro de 1934, no Teatro Espanhol de Madri.
Naquela circunstância, a plateia “de bem” de uma classe social abastada, mas indigna, protestou com impetuosidade desde a abertura, que durante a representação o provocou, todos apontando para depreciar a sua condição de homossexual, provinham de expoentes de uma direita arcaica e obtusa, extenuantes defensores de imagens sacrossantas como o respeito e a honra que, de qualquer modo, o autor com a sua obra havia colocado em discussão. A atriz que interpretava Yerma, a amiga Margarita Xirgu, não foi poupada de ofensas públicas nas quais gritavam que era lésbica (fato sobre o qual até hoje permanece em certo mistério, tendo sido ela mulher casada e sem filhos, mesmo existindo documentos de um neto que dizem nunca ter sabido de sua condição). Federico e Margarita não se abalaram muito pelos gritos antipáticos lançados a eles e, no dia seguinte, saíram nos vários jornais críticas em um tom muito diferente. Todos os jornais próximos à direita denunciaram publicamente a gravidade de uma obra como Yerma, descrevendo-a como inoportuna e imoral, não só pelo bem comum, mas também pela Igreja e porque ameaçava o sentido arcaico e devoto da tradição. O acontecimento teve, contudo, um alcance de tal forma ruidoso que, de qualquer forma, assinalou de maneira muito nítida o consistente périplo de ódios e atrocidades aos quais o poeta havia sido submetido nos últimos meses.
Após colocar em cena a personagem de Mariana Pineda, uma heroína de Granada que, movida pelo amor ao seu homem, desafia a autoridade do Rei e prefere morrer a ceder as suas chantagens, e Yerma, a imagem da mulher insatisfeita que enlouquece pela falta de um filho e pelo clima pesado de indiferença e submissão por parte do marido, que acaba matando, a sociedade espanhola não estava muito disposta a aceitar outras representações que enlameariam cenicamente a moral e destruiriam os pilares sobre os quais o respeito e o sentido da família se conservavam naquele tempo, de modo muito mesquinho.
O autor, enquanto isso consegue compor A Casa de Bernarda Alba, um drama rural que, sozinho, seria considerado como o terceiro capítulo daquela trilogia dramática da terra de Espanha. Não consegue, porém, vê-la representada porque é capturado e executado. Nesta obra o autor propunha um outro personagem escandaloso (aos olhos dos conservadores), a jovem Adela que, não aceitando as rígidas restrições da tirana mãe, consegue amar um homem, escondido.
A mulher que García Lorca pinta com essas suas obras não é tanto uma mulher fogosa que procura espasmodicamente pelo ato sexual e a satisfação de uma necessidade efêmera, a do prazer, mas é uma mulher muito profunda, que acredita no juramento de amor ao qual não está disposta a abrir exceção. Por isso Mariana Pineda chega a colocar em perigo a sua pessoa para que pudesse proteger o homem que ama, um conspirador. Mas no final ela morre por ter permitido a conspiração e não aceitar ceder aos interesses sexuais do Alcalde del Crimen que poderia lhe conceder a anistia. É preferível a morte à honra. O anulamento do corpo é preferível à sua contaminação. O direito de decidir vence sobre a obrigação de ser subjugado aos poderosos. Por isso Adela não deixa de fazer valer as suas razões em uma casa onde a luz não entra nunca e parece um monastério de clausura. Veremos ela chamar a sua mãe, replicá-la, e manter a razão mesmo se não consegue sair daquele reino das sombras porque é a própria sociedade da qual o autor nos fala que ainda não é aberta para o novo, para as exigências de um mundo justo e imparcial que garanta os direitos e uma igual consideração para com a mulher. Se Adela ao final da obra morre deixando uma dor que não é assim e que logo será substituída pela ritualidade enfadonha das irmãs. Estas últimas são conscientes (pelo Martírio) de que ela teve mais sorte do que elas (Dichosa ella). Sorte não apenas por ter conseguido amar a um homem (que é o desejo que todas têm), mas, sobretudo, por ter sido de tal forma sábia e voluntariosa em contestar a mãe, com impetuosidade e astúcia, coisas que elas não têm.
De Yerma os otimistas ligados à ideologia reacionária não fizeram mais do que sublinhar a imoralidade e a perversão da personagem feminina a despeito da mulher que, contrariamente a todas as entediantes advertências do marido por todo o percurso da obra, não faz nunca algo de inapropriado. Nem quando uma velha bruxa profetiza que para poder ter um filho talvez fosse melhor que engravidasse de outro, Yerma consegue se satisfazer. Apesar da necessidade trôpega, um filho e essa maternidade perdida seriam a causa de sua loucura, a mulher não é capaz – diferentemente de Adela que representa a personagem feminina mais rebelde – de violar o pacto de honra. Ou seja, exclui a priori a possibilidade de uma traição conjugal para seguir o seu objetivo de maternidade porque aquilo – independente da notícia se difundir ou ser conhecida apenas por ela – representaria uma ofensa vergonhosa no confronto de seu código de respeitabilidade, da sua honra, mostrando-se então, diferentemente de Adela, uma mulher que sente muito o inconveniente de sua necessidade, mas que não tem força ou iniciativa para concretizar as suas vontades.
As três mulheres, das profundezas de dores não redimidas, de pessoas privadas de afetos e considerações, tornam-se três vítimas sacrificiais do poder patriarcal e ditatorial: Mariana Pineda será executada por ter sido uma conspiradora, Adela se suicidará após receber a falsa notícia da morte de seu amante e Yerma estrangulará o seu marido tornando-se, ao mesmo tempo, uxoricida e infanticida do filho que nunca teve e que, matando o seu companheiro, de fato não poderá nunca mais o ter.
Três histórias de mulheres sozinhas e atormentadas, onde a solidão e o tormento são companheiras ancestrais de um contexto dominado por atitudes preconceituosas, potentes tabus, fofocas, rumores e vozes do povo que, como um grande e único personagem, contribui claramente para escrever, de maneira muito trágica e fatalista, os destinos do enredo. Aquilo de cruel que acontece, acontece porque não pode acontecer nada que suavize a situação. O poder patriarcal, a carga de virilidade e de machismo do homem não podem ser contraditos nem anulados, a mulher deve conservar a sua posição doméstica relegando a sua existência a casa e à prole (quando houver), mas isso se torna muito mais limitante pelo fato de que a casa, que é o único ambiente concedido a ela de habitar, é frequentemente uma cova intestina de ódios, incompreensões e indiferenças que não as permetem de serem escutadas ou interpeladas de modo saudável e sem um tom ameaçador.
Mariana, mesmo vivendo com os seus filhos e com a mãe, na prática, é como se vivesse sozinha, arrancada do ambiente familiar no qual está inserida, nem por isso esquecendo-se de proteger a prole, enquanto a mãe está pronta para reprová-la. Trata-se, de qualquer forma, apenas da cena inicial desde então a mulher encontrará refúgio em outra casa e depois, na parte final, a encontramos na prisão pelo crime de conspiração.
Adela vive em uma casa que não é a sua porque, como representa o título da obra, é a de “Bernarda Alba” e não da família Alba. Ela, como as suas irmãs e a pobre avó, não fazem nada além de contribuir para aumentar numericamente a presença do núcleo familiar, mas no interno não existem vínculos afetivos ou amistosos. As cinco irmãs estão em eterna luta e competição entre elas e não perdem a oportunidade de se desmentirem em frente à mãe ou de mostrarem-se disponíveis e subalternas a ela, quando na verdade todas a odeiam, umas mais, outras menos. Dos pais Adela não recebe nada: o pai está morto, a mãe é uma terrível viúva que dá ordens ao seu prazer, sem ouvir a opinião dos outros. A família transmite em sentido muito autoritário o respeito incansável à autoridade (a mãe), a obediência muda, o respeito das ordens e a observância das proibições, a punição verbal e corporal frente às atitudes que não respeitem a autoridade, a honra, a religião, a tradição e as convenções intolerantes e emboloradas.
A casa onde vive Yerma, em última análise, é muito fria e estéril. Habitada só por ela e por seu marido que a deixa praticamente só em grande parte do dia, quando ele está envolvido nos trabalhos dos campos. Embora a vizinha vá frequentemente encontrá-la e falar com ela, Yerma é uma mulher muito sozinha, que vive a sua solidão de maneira dramática e oprimente. Por estas razões o seu ânimo e a ordinária convencionalidade a sugere que a sua, para ser efetivamente uma família, precisa de prole. Ou seja, de algazarra, de calor, de maior atenção. Todas as coisas que são mal vistas pelo marido, interessado só pelo trabalho e pelos ganhos e que não conhece as leis do afeto: não por culpa sua, mas porque nunca ninguém o transmitiu.
Se García Lorca não tivesse sido morto com certeza teria continuado imperturbável com o seu percurso já iniciado, ou seja, aquele de se ocupar com os excluídos, de usar o seu talento para dar voz às exigências represadas de quem, não tendo poder e não sendo um homem, seria silenciado ou censurado. Sabemos de fato que havia iniciado a obra Os sonhos de minha prima Aurelia da qual nos restam poucas partes e onde, entre outras coisas, se delineia uma relação entre um garotinho que deseja namorar uma mulher bem mais madura do que ele. Bem intuímos, mesmo sem saber muito sobre toda a história da obra que ele estava escrevendo, que uma cena como essa, na qual simplesmente (talvez até infantilmente) um garoto se mostra atraído e interessado por uma mulher mais velha do que ele, teria sido interpretada pelo ambiente reacionário espanhol como extremamente perigoso, desmedido e imoral. Um pouco como seria o drama que ele escrevia, centrando os acontecimentos em torno a um fenômeno de incesto. Obra que parece nunca ter sido trabalhada por García Lorca, se não esboçando um possível título, por causa de sua morte prematura.
Aquilo que García Lorca procurou fazer com o seu teatro de investigação social foi uma tentativa muito previdente e necessária que, se no momento foi vivida como depravada e imoral, no tempo mostrou a sua validade e eficácia. As suas obras, como alguns documentales fotográficos, nos permitem hoje, pouco menos de um século após terem sido escritas, calar-nos naqueles contextos, naqueles cenários populares dos quais lê, dos quais os códigos formantes eram tão duros e implacáveis, privados de um desenho de igualdade e democracia. García Lorca de maneira muito profética, com as suas obras, levou a luz a pobre mulher ignorada por todos possibilitando-a de ter voz, declamar a verdade e celebrar as melhoras de sua condição, se estes impulsos da consciência ocorrem no desinteresse e no estar sendo ouvida por parte da comunidade. Mostrou, simultaneamente, como sendo necessário que alguém abrisse a nova estrada para ser percorrida, exigisse o direito ao respeito e a dignidade, instituindo um modelo crítico saudável, ativo e útil, precisamente, para o crescimento. Em outras palavras, García Lorca, primeiro como tema literário e depois como motivo existencial, como os novos mártires, fez com que os seus heróis contemporâneos não fossem sujeitos que possuem dotes milagrosos e especiais, mas, ao contrário, fossem homens simples, do povo, que conseguem, mesmo em sua limitada erudição e conhecimento do mundo, ter consciência de sua condição não igualitária.
A morte de Lorca, não é nada mais do que a última manifestação e o capítulo conclusivo daquele ciclo comprometido com a construção de uma pluralidade dividida, que abre ao consenso e a discordância com os meios democráticos da palavra e do respeito. De um certo modo, o autor vestiu os trajes de Mariana Pineda, fazendo-se cantor de ideias liberais, respirou a asfixia dos ambientes negligenciados e preconceituosos, sofrendo a impossibilidade de se fazer ator (e não espectador) da história, se solidarizando com a bela Adela à procura de sua liberdade sexual (Adela diz querer amar quem lhe fale ao coração, exatamente como García Lorca quer se sentir livre para amar os companheiros do seu próprio sexo). O autor também tem em si aquela energia que Yerma obtém em uma fase de obscurecimento da razão, que segrega enfim o seu marido, liberando-se de seu mal.
Faz-me pensar, então, que toda essa mistura de fel e veneno, de ódios e ameaças, de ofensas e serviços mentais, de difamações à sua arte e de vividas apreensões ao seu destino o autor a tenha, em um certo modo frustrado não com o ato da morte a qual, barbaramente, é constrangido, mas com a sua literatura muito comprometida e de cunho civil. As palavras permitem o diálogo enquanto as armas alimentam as distancias e inflamam os rancores.
A grandiosidade o teatro de Lorca está exatamente na tensão cívica que delimita aos vários acontecimentos que atraem o leitor atento a uma verdadeira coparticipação dos fatos. García Lorca não ensina em qual lado se posicionar na luta, mas nos sugere que frequentemente essa luta se sustenta nas bases de expectativas erradas ou ideológicas que rebaixam a alma de um povo. Por estas razões acredito que não seja apenas útil, mas também necessário ler as tramas dos textos teatrais do autor, desnudando-as de determinações espaço-temporais, examinando-as como condições-tipo para uma análise mais precisa sobre os mecanismos mentais, sobre como a luta ideológica e a supremacia do pensamento conduzam sempre a erros graves, frequentemente irrecuperáveis. A rebelião e a revolta, então, que García Lorca de qualquer forma representa com os seus personagens que não se adéquam à sociedade e que se distinguem dela para serem porta vozes de uma nova visão das coisas, é um meio eficaz que pode focalizar as problemáticas, torná-las claras, permitir uma maior solidarização que possa empreender um percurso biunívoco na expressão das ideias para que o inflexível e despersonalizante domínio dos pretensos poderes permaneça uma lembrança pálida.
Los relojes llevan la misma cadencia
Y las noches tienen las mismas etrellas.

García Lorca nos presenteou com noites que nem sempre possuem as mesmas estrelas. Mesmo se os relógios seguirem todos a mesma trajetória entoando um tempo que é menos real do que o próprio céu.




[i] O prefeito pertencia ao partido socialista que, diferente daquele espanhol que nunca teve grande participação, representava uma das principais almas do grupo republicano.
[ii] Como se sabe, o Rei Alfonso XIII deixou o País sem abdicar, em 1931 quando foi proclamada a Segunda República. A guerra civil combatida de 1936 a 1939 levou ao poder Francisco Franco, proclamado Generalissimo e Chefe das Forças Armadas. Quando Franco, já idoso, escolheu a regência para a Espagna depois que fosse morto, indicou Juan Carlos, neto de Alfonso XIII, como seu successor. Com a morte do Generalissimo, em 1975, o poder passou para as mãos de Juan Carlos que “restaurou” a monarquia e se tornou Re Juan Carlos I.
[iii] El teatro es la poesía que se levanta del libro y se hace humana. Y al hacerse, habla, grita, llora y se desespera. El teatro necesita que los personajes que aparezcan en la escena lleven un traje de poesía y al mismo tiempo que se les vean los huesos, la sangre. Han de ser tan humanos, tan horrorosamente trágicos y ligados a la vida y al día con una fuerza tal, que muestren sus tradiciones, que se aprecien sus olores, y que salga a los labios toda la valentía de sus palabras llenas de amor o de ascos”.
[iv] “En este mundo yo siempre soy y seré partidario de los pobres”.
[v] Homem político socialista, foi algumas vezes ministro nos governos da República. Federico era profundamente ligado a ele e estimava as suas qualidades de grande pedagogo, âmbito pelo qual foi um dos principais defensores de um novo modelo de ensino, uma verdadeira reforma que renovou o sistema educacional atrofiado da Espanha, tradicionalmente enxarcado de religião. Representou um dos adversários principais da Falange e dos nacionalistas durante o conflitto civil, tanto que alguém chegou a sustentar que o assassinato de García Lorca foi um instrumento para atingir o próprio Fernando de los Ríos que, diferente do poeta, era um político e então um homem publicamente alinhado com a esquerda.