sexta-feira, 31 de julho de 2015

O TEATRO DA MORTE DE TADEUSZ KANTOR

Em 2015 se comemora o centenário de Tadeusz Kantor. Pouco conhecido do público brasileiro, Tadeusz nasceu na Polônia em 06 de abril de 1915, durante a primeira grande guerra e faleceu e 1990. Durante a sua vida viu invasões alemães e russas e atravessou a opressão e o horror. 

Em sua homenagem, apresentamos um breve resumo da carreira desse grande artista que deixou as suas marcas e foi referência na vanguarda teatral.




Em agosto o SESC Consolação, em São Paulo, comemora o centenário do artista polonês com a exposição MÁQUINA TADEUSZ KANTOR, em cocuradoria com a Galeria Foksal, na qual Kantor criou as suas primeiras grandes obras.









O Teatro da Morte de Tadeusz Kantor

Texto de Claudia Venturi


Kantor foi pintor, cenógrafo e diretor teatral – representante de um movimento de pesquisa da vanguarda que tendia ao abandono da lógica ligada ao acaso e a improvisação, buscando novas estradas expressivas. Dedicou o seu trabalho a estudar a arte e a linguagem artística anti-naturalismo.

O seu interesse pelo teatro iniciou nos anos 1930, na academia de Belas Artes da Cracóvia, durante os seus estudos sobre as artes figurativas, conjugando tendências artísticas das mais importantes no período entre os sec. XIX e XX: simbolismo, expressionismo, Bauhaus - passando da pintura ao teatro. Foi fundador do “Teatro Clandestino” e, mais tarde o “Cricot” (o seu teatro), uma espécie de café literário. Tadeusz Kantor manteve o seu trabalho teatral até mesmo durante a segunda guerra quando encenou com o seu grupo em um prédio bombardeado.

A dramaturgia, no seu caso, não se refere ao retorno da escrita sobre a ação, mas a uma ideia de ‘escrita cênica’, um projetar rigoroso da estrutura do espetáculo, mesmo nos casos em que o texto seja composto por uma série de ações físicas de duração indeterminada.

Na metade dos anos 1950, Tadeusz e o seu grupo Cricot2 propuseram-se a estudar as relações entre as artes figurativas e performáticas, experimentando novas formas de arte que estavam se difundindo em todo o mundo, como o environment e o happening.

No início dos anos 1970 começa a repensar o percurso artístico, pesquisando novas formas para enfrentar o problema da dialética entre o passado e o presente. O tema fundamental do teatro de Kantor é a memória e o além. Recordações e nostalgia estão presentes inclusive nas músicas. Utilizava muito as máquinas e tinha no armário um símbolo importante, pois representa o local onde se colocam e se fecham as coisas acumuladas durante a vida.

O êxito desse longo processo de reflexão foi o espetáculo “A Classe Morta” (1975), considerado um dos espetáculos mais importantes de toda a vanguarda teatral . Esse espetáculo não era baseado sobre um texto escrito, mas era composto por uma série de cenas breves nas quais velhos moribundos tentavam desesperadamente retornar às cadeiras da escola, às vezes levando sobre os ombros manequins, representando eles mesmo quando crianças. Tudo acontecia sob o olhar irônico e melancólico do próprio Kantor, cuja presença em cena, no papel de diretor, dava a toda operação um sabor fortemente autobiográfico, impelindo o espetáculo de forma a refletir sobre o sentido do teatro e o papel do artista. Aliás, Tadeusz estava sempre presente em seus espetáculos, para romper com as convenções teatrais – entra, passa, olha – como um diretor de orquestra.


Em “A Classe Morta” a realidade é reconstruída em cena, o tempo ocorre no ponto do passado, da memória subjetiva e da histórica. A cenografia é dadaísta, repleta de símbolos, aproximando imagens em contraposição – a esperança da cruz levada por um padre e a violência da guerra na falta de expressão de um soldado que se move como um boneco de corda. A representação é anti-naturalista, seguindo a linha de sua pesquisa, na qual os atores se movimentam como marionetes.

Tadeusz Kantor era extremamente interessado no discurso das marionetes e na expressão corporal delas – o duplo. O ator estava sempre atrás do seu manequim, ou com um manequim nas mãos, às vezes com outro objeto. O ator não se separa do seu manequim que é o símbolo do “eu” e de tantas outras coisas. Representar com um manequim nas mãos dificulta a identificação do ator com o personagem, contrapondo novamente o naturalismo. Toda a ritualidade da escola é apresentada em “A Classe Morta” de forma quase mítica: erguer a mão, recitar poesia, levantar-se e sentar-se quando o professor chega ou sai. Ele buscava a destruição dos ritos, utilizando-se também de um pouco de técnica de clown.

O teatro de Kantor é permanentemente dirigido ao “atrás” e ao “interior”. Ele mesmo o definia como “Teatro da Morte” – para restituir, através da memória, a dimensão de um passado que, permanecendo bem longe do ser – o lugar de construção do sujeito – se revela como sendo o “não lugar” onde a identidade se coloca em crise até a sua completa dissolução.

Abaixo postamos um documentário em Francês, com legendas em Italiano, sobre Tadeusz Kantor:



Quer saber mais sobre a exposição? Visite o site da Folha/ilustrada: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2015/07/1650249-em-centenario-do-diretor-exposicao-sobre-tadeusz-kantor-chega-ao-brasil.shtml 
ou ainda: http://www.gsnews.com.br/polonia-promove-ponte-artistica-brasil.aspx

Texto de Claudia Venturi
Referências: 
- Zanlonghi, Giovanna - Aulas de Dramaturgia, Università Cattolica del Sacro Cuore di Milano, em 2007. 
- Bernardi, Claudio e Susa, Carlo - Il Teatro della Morte di Kantor em Storia Essenziale del Teatro, V&P, Milano, 2005.