sábado, 11 de junho de 2016

A HERANÇA DA CIGARRA

A HERANÇA DA CIGARRA

Claudia Venturi, 1999,  em cena do espetáculo
"Aos poucos ouvidos moucos que virão falaremos um pouco da nossa escuridão",
de Jül Leardini / Curitiba Pr


Claudia Venturi, além de nossa presidente, é atriz com grande experiência em teatro e movimentos sociais. Possui especialização em Educação Fundamentada na Arte e Mestrado em Educação com período de estudos no curso de Teatro Social na Università Cattolica di Milano. Suas pesquisas a conduziram a um estudo mais aprofundado sobre teatros didáticos, como o de Bertolt Brecht e Augusto Boal e a participação em espetáculos de crítica e reflexão social, como “Aos poucos ouvidos Moucos que virão falaremos um pouco da nossa escuridão”, com o grupo Êxedra de Curitiba (Direção Jülmar Leardini) e “La Divina Commedia dello Shopping”, na Itália, com o grupo americano Bread & Puppet (direção Peter Schumann). Com o teatro e cultura também teve a oportunidade de desenvolver trabalhos junto a movimentos de trabalhadores, educadores, de valorização da cultura africana, de gênero, com jovens de comunidades “de risco”, entre outros. Atualmente realiza pesquisa sobre Dario Fo, o qual utiliza uma técnica inspirada nos antigos cômicos e bufões italianos, para apresentar e discutir a sociedade em que vive.
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Há anos me incomodo ao ouvir a Fábula da Cigarra e da formiga e, mais ainda, ao ouvir algum colega artista a utilizando como metáfora para qualquer coisa. Tenho certeza de que vários colegas compartilham desse sentimento, revelado, recentemente, por Vítor Ramil, ao falar exatamente sobre o valor do trabalho artístico e do peso carregado por optar por uma profissão não convencional.
Esopo foi um escritor grego nascido no século VII a. C. Supostamente teria sido o criador da fábula, um gênero literário em que os animais têm características humanas. Eles falam e agem como pessoas. No final, tem sempre uma moral da história. A ele foram atribuídas diversas histórias, inclusive A Cigarra e a formiga, que mais tarde foi recontada por Jean de La Fontaine (escritor francês que viveu no séc. XVII) assim:
Tendo a cigarra cantado durante o verão,
Apavorou-se com o frio do inverno
Sem mosca ou verme para se alimentar,
Com fome, foi ver a formiga, sua vizinha,
pedindo-lhe alguns grãos para aguentar
Até vir uma época mais quentinha!
- "Eu lhe pagarei", disse ela,
- "Antes do verão, palavra de animal,
Os juros e também o capital."
A formiga não gosta de emprestar,
É esse um de seus defeitos.
"O que você fazia no calor de outrora?"
Perguntou-lhe ela com certa esperteza.
- "Noite e dia, eu cantava no meu posto,
Sem querer dar-lhe desgosto."
- "Você cantava? Que beleza!
Pois, então, dance agora!"

Imagem do site Revista guia infantil

A moral dessa história é que todas as ações geram consequências. Enquanto a cigarra se divertia, a formiguinha só trabalhava. Mas, no fim, o esforço da formiga é compensado pela fartura e a cigarra, que não se preparou, ficou sem ter o que comer. O problema reside exatamente na moral: a cigarra que só se divertia, que não se preparou, se deu mal, por não trabalhar, não pensar no futuro.
Observemos o quanto é velho esse pensamento de que artista é vagabundo, vem desde antes de Cristo! Estudando mais aprofundadamente a História da Arte, vemos várias passagens nas quais podemos observar os artistas sendo rotulados, discriminados e desprezados por não realizarem um trabalho convencional ou por se exporem publicamente, embora a arte sempre tenha sido consumida por todo o tipo de pessoas, dos mais nobres aos mais pobres. Na antiga Grécia, os festivais teatrais eram verdadeiros eventos organizados pelo governo, oferecidos a toda a população e com duração de horas, dias. Mesmo assim, os artistas não eram considerados profissionais, apenas os autores recebiam pelo trabalho.
Somente no século XVI começaram a surgir artistas profissionais, os “commici dell’arte”, onde o termo cômico se refere a todos os atores e arte, naquele tempo, significava ofício, então a expressão designava os atores profissionais. Também, pela primeira vez, as mulheres começavam a subir no palco para realizar os papeis femininos, até então representados apenas por homens. Como as mulheres faziam parte do âmbito privado, não lhes era consentido exporem-se publicamente, logo as atrizes foram associadas a prostitutas, as únicas mulheres consideradas “públicas”. Vagabundos e prostitutas. Definições que, por incrível que pareça, ainda são utilizadas para se referir aos artistas da cena e a alguns outros também.
Voltamos à fábula da Cigarra e da Formiga: as formigas trabalhavam enquanto a “vagabunda” da cigarra se divertia... O que nunca foi questionado na fábula foi o fato de que o trabalho das formigas teria se tornado extremamente monótono e mais longo, não fosse o alento proporcionado pelo canto da cigarra, que amenizava a tensão do trabalho repetitivo e que alegrava os momentos de pausa. O que Esopo nunca parou para pensar é que tocar bem um instrumento, normalmente, não é uma habilidade que nasce com as pessoas, essa habilidade requer trabalho e estudo. Da mesma forma, todas as manifestações artísticas exigem um esforço constante, prática, trabalho corporal, estudo, tempo de preparo, além de materiais para possibilitar a realização da obra.
É curioso pensar que algumas pessoas acham que um artista não mereça receber pelo seu trabalho, “convidam” aquele amigo ator para “contar uma piada” na festa que eles darão, o amigo músico para “dar uma canja pra galera” e outros absurdos do gênero. Pode não parecer, mas isso é tão ofensivo quanto chamar o seu amigo advogado para dar uma consultoria gratuita no meio da festa de aniversário de seu filho.
Sim, os artistas trabalham com diversão e devem se divertir com o trabalho. Mas acredito que todo mundo deva se divertir ou, ao menos, satisfazer-se com o ofício que realiza, seja ele músico, médico, professor ou mecânico. O fato de optar por uma atividade que é realizada nos momentos de ócio, na verdade, não é só gratificante, como muitos pensam. Lembre que o ator está trabalhando enquanto a sua família está passeando ou descansando e ele vai ter seu momento de repouso nas horas de trabalho do resto dos não artistas. O seu contato com a família, amigos, namorados fica comprometido para poder proporcionar a diversão das demais pessoas. Ele trabalha enquanto você se diverte. Ele trabalha para que você se divirta. Como já cantava Chico Buarque, em Ela é dançarina:
O nosso amor é tão bom
O horário é que nunca combina
Eu sou funcionário
Ela é dançarina
Quando pego o ponto
Ela termina

Essa situação não é fácil e é um fator responsável por muitos rompimentos amorosos, afastamentos de amigos e conflitos familiares. Quando você chega a uma festa, normalmente o artista já está, ou esteve, no local, preparando os seus materiais, aquecendo corpo e voz enfim, trabalhando para que a sua diversão seja garantida e de qualidade. E quando você se cansa da festa pode simplesmente ir embora, enquanto que o artista precisa permanecer até o fim e, muitas vezes, ainda providenciar a organização ou limpeza do espaço, apesar de todo o desgaste físico e emocional que o trabalho produz.
Já há algum tempo venho me deparando com diversas falas sobre o valor da cultura, atualmente ainda mais questionada devido às ações resultantes de nossa tumultuada situação política, e sobre quem deve pagar pela cultura. Curioso é que nenhum desses questionamentos lembram de falar sobre o que seria a cultura e sobre as suas diversas funções na sociedade, como proporcionar o sentimento de pertença, a unidade, fortalecer grupos, incentivar a reflexão e os questionamentos sobre situações que não precisam mais se perpetuar – agressões, machismo, racismo, exploração trabalhista etc. Observem a nossa postagem anterior, sobre o espetáculo “Lo Stupro”, de Franca Rame, um monólogo criado para que o público pudesse se aproximar do que seria uma pessoa que sofreu abuso sexual, do quanto isso é doloroso para os envolvidos e para que esse público se sensibilize com a situação, lembrando que qualquer pessoa pode ser atingida por ela, independente de idade, classe, conhecimento, para não permitir que essas situações se repitam.
No contexto do valor financeiro da cultura e de quem deve pagar por ela, entramos em alguns questionamentos sobre o valor educativo e formativo da gratuidade, que na verdade não existe, porque sempre alguém paga pelo serviço que será realizado. Se a cultura é oferecida pelo governo, os contribuintes é que estão pagando por ela. Se é um trabalho voluntário, o profissional que o está oferecendo é quem está pagando, pois o que ele deixou de receber, é o valor que ele está pagando para que vocês usufruam de tais obras. Essa pessoa está se doando para que você se divirta! Portanto a cultura que você não paga, diretamente, para consumir, também possui um valor monetário, além do intelectual, e é importante que seja vista, analisada, prestigiada e, inclusive, criticada, caso algo não esteja de acordo com o que se esperava. Essa cultura pseudo gratuita merece todo o respeito do público.
Por que tanta gente está disposta a pagar valores absurdos para assistir a um espetáculo com algum artista de televisão, nacional ou internacional que, muitas vezes, sequer consegue compreender, mas não pensa em pagar um valor quase simbólico para prestigiar a cultura local, de um conhecido? Por que tanta gente não tem vontade de arriscar gastar um valor que mal paga a primeira cerveja em uma noite de festa (imagine pagar as despesas da produção...), para conhecer um trabalho local? Por que sempre pensamos que o nosso é pior?
Outro questionamento recorrente é sobre as meia entradas, reguladas por lei. Quem paga a diferença desse valor que foi descontado do seu ingresso? Embora a lei exista, essa é a única participação do governo nas meia entradas: definir quem tem direito a elas. Sobrando para os grupos, normalmente já tão sobrecarregados financeiramente, a conta dessa diferença no valor dos ingressos. Acreditamos que o governo deveria ter uma participação maior e, no mínimo, dividir com os grupos essa conta. Mas se o incentivo servir pra que algumas pessoas a mais saiam de casa e decidam começar a frequentar atividades culturais, está valendo! Eu, pessoalmente, não sou contra essa lei, nesse aspecto o meu grupo ainda ampliou o benefício, oferecendo o desconto também para a classe artística. Preferimos um auditório lotado de “meia entradas” do que com metade da lotação (sendo otimista) de pagantes inteiros. Alguns grupos costumam argumentar que não oferecem o desconto para os colegas, porque eles, melhor do que ninguém, deveriam valorizar o trabalho realizado, por saber o quanto é difícil e oneroso montar um espetáculo. Concordo! Mas também, às vezes, encontro-me do outro lado e sei o quanto é difícil se manter sendo artista e, muitas vezes, deixo de assistir a um espetáculo por estar com pouco dinheiro. Portanto, prefiro que os colegas que se encontram nessa situação prestigiem duas vezes o meu trabalho, ao invés de apenas uma. E os deixo livres para ter consciência e pagarem a entrada inteira, quando a sua situação estiver melhor.
O meu objetivo neste texto não é dar respostas, mas lançar questionamentos e instigar os leitores a pensar no valor que a cultura, a arte, possui em suas vidas, em sua sociedade, no mundo. Em que momentos você a consome, você a recebe? De que forma ela influência a sua vida, os seus sonhos e conquistas, as suas decisões? Como seria a sua vida sem música, sem obras de arte, sem cinema? Sem folclore ou rituais diários? Que valor monetário e intelectual você dá para isso? Lembre: artistas não nascem conhecidos e famosos, se não tiverem oportunidade para estudar, para se aperfeiçoar e se desenvolver, dificilmente teremos grandes eventos artísticos. Mais do que isso, os artistas também comem, pagam aluguel, têm necessidades pessoais para a manutenção da saúde etc. um artista dificilmente tem vínculos empregatícios em nossa sociedade, se ele ficar doente no meio de um processo, perde o trabalho sem nenhum benefício. O grupo não pode arcar com isso, pois o valor da produção não inclui seguro para os participantes. É um mundo com regras e rotinas completamente diferentes das que regem os demais trabalhadores.
“Faz mal... o teatro têm vozes, os lugares, os corpos, os sexos. O Teatro, se é teatro de verdade, quando está no papel morre. Isto é, você deve imaginá-lo em voz alta e assim é o diálogo sobre os dois máximos sistemas de Galileu – Teatro puro. Não belo como aquele de Shakespeare, não. Convenhamos, nesse aspecto Shakespeare é melhor. Ele faz teatro com doze, com dezesseis personagens, se quiser. Galileu não! Conhece os seus limites, o faz com três. E qual teatro se pode fazer somente com três personagens? Mas por Deus, este! O teatro à antiga Italiana. A minha profissão, a comédia. A minha profissão é antiga como aquela dos mecânicos, então... então não é a profissão mais antiga do mundo. A minha é datável: 3 de fevereiro de 1545. Naquele dia, sete jovens vão em frente ao tabelião, na cidade de Pádua, para assinar o ato constitutivo da primeira companhia de cômicos viajantes profissionais dos quais se têm traços. Sabe quantas coisas devem escrever os atores daquele momento em diante, para explicar às pessoas porque elas devem pagar pelo trabalho que eles fazem? Mas sobretudo para explicar às pessoas que as atrizes, pelo simples fato de se colocarem aqui no palco, na frente das pessoas, nem por isso elas automaticamente serão meretrizes? E de vez em quando esta diferença, na Itália, alguém precisa re-explicar.”
Com este texto o italiano Marco Paolini inicia o seu espetáculo ITIS Galileu (vídeo abaixo) e eu me despeço deste artigo.

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Fontes: