sexta-feira, 3 de junho de 2016

LO STUPRO de Franca Rame

Lo stupro – Franca Rame

Falar sobre o estupro de Franca Rame, não é apenas falar sobre um espetáculo teatral, um monólogo escrito e interpretado por uma grande atriz italiana. É falar de uma mulher de coragem que, nos anos 1970, sofreu uma grande violência e, embora vários anos depois, não apenas teve a coragem de denunciar o violento ato sofrido, mas de torná-lo público e transformar a sua dor em obra de arte.
Pesquisa e tradução de Claudia Venturi
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Franca Rame - imagem de matéria no site
repubblica.it

Era 9 de março de 1973 quando, em Milão, Franca Rame foi sequestrada por cinco homens. Fizeram-na subir em um furgão e a estupraram por horas. Quebraram os seus óculos, cortaram-na com uma lâmina, queimaram-na com cigarros. Um plano elaborado em ambiente de extrema direita para atingir “a companheira de Dario Fo”, que colaborava com o Soccorso Rosso[i] nas prisões, que foi exposta ao público durante o caso Pinelli[ii].
“Se mexe puta! Me faça gozar” O sangue me escorre das bochechas até às orelhas. É a vez do terceiro. É horrível sentí-los gozar dentro de mim, animais nojentos.
Franca mesmo explica que para ela aquele evento foi tão angustiante que ela não conseguiu falar no assunto por dois anos, nem com as pessoas mais queridas e próximas (entre elas o seu companheiro Dario Fo), nem para as forças policiais ou para o tribunal (que deveriam protegê-la). Ela o sentia como um fato sujo que não queria revelar a ninguém. Um fato que a humilhava e o qual ela viria a revelar somente em1987. Portanto, por quatorze anos a agressão permaneceu, para todos, como tendo sido feita apenas de pancadas, mas não de estupro!
Evidentemente, explica Franca Rame, tentavam convencê-la de não fazer mais da profissão deles – o teatro – um cenário para falar de política. Tentaram amedrontar e encontraram na mulher o elo mais fraco da família, composta justamente por Dario Fo e o filho.

Família Fo: Dario Fo, Franca Rame e Jacopo Fo -
foto do jornal corriere della sera

Naquela noite, com a notícia do estupro, uma pessoa festejou: era o General Palumbo. “A notícia do estupro de Franca foi recebida no quartel com euforia, o comandante festejava como se tivesse feito um grande serviço. Até mais do que isso...” testemunhou Nicolò Bozzo, que naquela época trabalhava no mesmo quartel.
Em 1987/88, dois fascistas, Angelo Izzo e Biagio Pitaresi, revelam ao juiz Salvini que os responsáveis pelo estupro foram os membros de uma gangue neofascista e, sobretudo, que a ordem de “punir” Franca Rame com aquele estupro partiu de dentro da Polícia Militar. Mas, segundo Bozzo, o general Palumbo não seria o mandante do crime, apenas o executor de “uma vontade muito superior”.
Pelo estupro – nunca houve uma condenação.
Mas Franca Rame nunca deixou de defender as mulheres violentadas, de denunciar o asco de quem te rouba algo que não se pode ver: a dignidade. Em 1975 apela a uma “análise teatral”: não sobre o divã do psiquiatra, mas sobre o palco, pra contar em um monólogo – Stupro – aquelas horas terríveis. É o único modo para exorcizar aquilo que a aconteceu, mesmo que, a princípio, afirmasse ter se inspirado em um caso que apareceu no jornal e não em sua própria experiência. O texto faz parte do espetáculo “Tutta casa, letto e chiesa[iii]” e as palavras são duras, precisas, cirúrgicas: quem as escuta não pode deixar de se envergonhar. No auditório, algumas garotas desmaiaram.
Não existe apenas a violência na rua, o estupro próprio e dito, mas uma segunda violência barra a mulher antes de fazer a denúncia contra os seus agressores. É a violência dos tribunais e do processo, no qual a mulher é colocada nua, no qual ela passa para o lado do culpado porque é com o comportamento da mulher, com a sua vida e as suas experiências que se justificam os estupradores. No final das contas, a culpa é sempre da mulher!
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Franca Rame - foto do site de repubblica.it

“É o trágico testemunho de uma mulher violentada, que narra, minuto a minuto,aquilo que está sofrendo. Violência de grupo. Um trecho estarrecedor, uma visão de muitas palavras que deve ser escutada, sobretudo pelos jovens.”
Dessa forma inicia o relato de Franca, o seu monólogo...
O Estupro (Texto de Franca Rame)
Há uma rádio que toca... mas só depois de um tempo que eu a ouço. Só depois de um tempo me dou conta de que tem alguém que canta. Sim, é uma rádio. Música suave: céu, estrelas, coração, amor... amor...
Tem um joelho, um só, plantado nas minhas costas... como se quem estivesse atrás de mim apoiasse o outro no chão...
Com as mãos segura as minhas, forte, girando-as ao contrário. A esquerda, em particular. Não sei por que, me vejo a pensar que talvez ele fosse canhoto.
Não estou entendendo nada do que está me acontecendo. Tenho sobre mim o pavor de quem está prestes a perder o cérebro, a voz... a palavra.
Tomo consciência da situação, com incrível lentidão... Deus, que confusão!
Como eu entrei neste furgão? Eu mesma levantei as pernas, uma após a outra com o empurrão deles ou me carregaram, erguendo-me? Eu não sei.
É o coração que me bate assim forte contra as costelas, me impedindo de raciocinar... é a dor na mão esquerda que começa a ficar insuportável. Por que eles a torcem tanto? Eu não tento nenhum movimento. Estou como que congelada.
Agora aquele que está atrás de mim não está mais com o seu joelho contra as minhas costas... sentou-se confortavelmente... e me mantém entre as suas pernas... fortemente... daquele de trás... como se faziam anos atrás, quando se tiravam as amígdalas das crianças. A imagem que me vem à mente é aquela. Por que me apertam tanto? Eu não me movo, não grito, estou sem voz.
Não entendo o que está me acontecendo. A rádio canta, nem tão alta. Por que a música? Por que a abaixam? Talvez seja porque eu não grito. Além daquele que me segura, tem outros três. Eu os olho: não tem muita luz... nem muito espaço... talvez seja por isso que eles me mantém meio deitada.
Eu os sinto calmos. Seguríssimos. O que fazem? Estão acendendo um cigarro.
Mas o quê? Fumam? Agora? Por que me seguram assim? Alguma coisa está para acontecer, eu sinto... Respiro fundo... duas, três vezes. Não, não esclarece nada... Só tenho medo. Tenho o coração que me escapa.
Agora um deles se move, se aproxima de mim, um outro se senta do lado esquerdo, o terceiro se agacha a minha direita. Vejo o vermelho dos cigarros. Estão inspirando profundamente. Estão muito próximos. Sim, algo está para acontecer... eu sinto.
O primeiro que havia se mexido, se coloca entre as minhas pernas... de joelhos... abrindo-as. É um movimento preciso, que parece combinado com aquele que me segura por trás, porque súbito os seus pés se colocam sobre as minhas pernas abertas para mantê-las paradas.
Minhas calças estão erguidas. Por que abrem as minhas pernas com as calças erguidas? Eu me sinto tão constrangida... pior do que se estivesse nua. Desta sensação, algo que não consigo individuar imediatamente me distrai... é um calor, primeiro tênue e depois mais forte, sempre mais forte, no seio esquerdo. Uma queimação. Os cigarros... sobre o pulôver até atingir a pele.
Eu não sei o que uma pessoa deveria fazer nestas condições. Eu não consigo fazer nada, nem gritar, nem chorar... Me sinto como se estivesse projetada para fora, de frente a uma janela e constrangida a olhar algo horrível.
Um cigarro após o outro, um cigarro após o outro... o fedor da lã queimada deve incomodá-los, com uma pequena lâmina cortam o meu pulôver, na frente, de cima a baixo... cortam também o meu sutiã... cortam também a superfície da minha pele. Durante a perícia médica mediram vinte e um centímetros.
Aquele entre as minha pernas, ajoelhado, agora segura os meus seios com as mãos cheias, eu as sinto geladas sobre as queimaduras.
Aquele que me segura por trás está se excitando, eu sinto que se esfrega contra as minhas costas.
Agora todos se ocupam em me despir. Um só sapato, só uma perna.
Agora um entra dentro de mim. Sinto vontade de vomitar.
Calma, devo ficar calma. Me desligo dos barulhos da cidade, me concentro nas palavras das canções.
“Se mexe, puta. Me faz gozar.”
Não quero compreender nada. Não sei mais nenhuma palavra, não conheço nenhuma língua. Estou como se fosse uma pedra.
Um cigarro após o outro. “Se mexe, puta, deve me fazer gozar”. É a vez do segundo. A lâmina que serviu para cortar o meu pulôver agora passa várias vezes sobre o meu rosto. Não sinto se me corta ou não. “Se mexe, puta, me faça gozar.”
O sangue me escorre das bochechas até as orelhas. Agora é a vez do terceiro. É horrível sentir animais horrendos gozarem dentro de você.
“Estou morrendo, - consegui dizer, - sofro do coração. Me deixem descer.”
Eles acreditam, não acreditam... “Vamos deixar ela descer. Não... sim...” Ouço uma bofetada entre eles. Espremem um cigarro contra o meu colo, aqui, apenas para apagá-lo.
Então, eu... eu..., ali, creio que finalmente desmaiei.
Sinto que estão me vestindo de novo. Agora tenho pouca serventia. Aquele que me segurava pelas costas me veste com movimentos precisos. Como se fosse uma criança. Reclama porque foi o único que não fez... Não sabe como colocar o meu pulôver cortado, enfia as duas tiras nas calças, fecha o zíper, me coloca o casaco... quebra os meus óculos.
O furgão para exatamente o tempo para me fazerem descer... e se vai.
Seguro o casaco fechado sobre os seios descobertos. Está quase escuro. Aonde estou? Plantas, verde, grama. Estou no parque. Me sinto mal... no sentido em que sinto que vou desmaiar... não apenas pela dor física, mas pelo nojo... pela raiva... pela humilhação... pelas mil cuspidas que levei no cérebro... pelo esperma que sinto sair de dentro de mim. Apoio a cabeça em uma árvore... até mesmo o cabelo dói... Claro, eles o puxavam para manter a minha cabeça parada. Passo a mão sobre o meu rosto... está sujo de sangue. Levanto a gola do casaco e caminho. Não sei aonde bater, não sei para onde ir. Caminho, nãos sei por quanto tempo. Depois, sem que me desse conta, encontro-me diante da delegacia. Estou apoiada na parede do prédio da frente... Olho para aqueles portões, vejo pessoas que vão e que vem... Penso naquilo que eu deveria enfrentar se entrasse. Penso nas perguntas deles. Penso nas suas caras... nos seus sorrisos...
Penso e repenso...
Então me decido...
Volto para casa.
Denunciarei amanhã.


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Fontes dos textos sobre o estupro de Franca Rame:
http://www.vanityfair.it/news/italia/13/05/29/morta-franca-rame-stupro
http://www.carmillaonline.com/2013/05/31/lo-stupro-di-franca-rame-i-fascisti-i-carabinieri-della-pastrengo-e-una-volonta-molto-superiore/
https://donneinazione.wordpress.com/2007/12/23/monologo-di-franca-rame/
Monólogo original: http://www.archivio.francarame.it/scheda.aspx?IDScheda=1194&IDOpera=170




[i] Socorro vermelho – foi uma organização italiana criada nos “anos de chumbo*”, criada principalmente para dar assistência legal e monitorar as condições carcerárias dos militantes de esquerda, extraparlamentares, nas prisões italianas. / * “Anos de chumbo”, na Itália, compreende um período histórico aproximadamente entre os anos 1970 e início dos anos 1980, nos quais se verificou um extremismo da dialética política, traduzida em violência nas ruas, na atuação de luta armada e atos de terrorismo.
[ii] Giuseppe Pinelli, anarquista envolvido no massacre de Piazza Fontana, quando, no final dos anos 60 explodiram bombas na praça, ferindo muitas pessoas. Suspeita-se que Pinelli tenha sido envolvido sem conhecimento da abrangência do ato e, para evitar que ele falasse, tenha sido morto no local do seu depoimento, forjando um suicídio.
[iii] Em tradução literal seria “toda casa, cama e igreja”, atualizando a frase poderíamos colocá-la como “bela, recatada e do lar”